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Shigue Suando

23 mar

Essa semana foi toda para os preparativos do Desfile que farei no dia 06 de abril. Quando me inscrevi para participar do dito cujo não imaginei quantas coisas eram necessárias para assumir o cargo de samurai. O pessoal da cidade de Okazaki leva a parada super a sério e fazem tudo com o afinco japonês. Depois de discursar para o prefeito e um monte de gente influente, agora tive que encarar os treinos de montaria a cavalo, cerimônias e ensaios.

Na quinta feira fui com Sakai-san (o senhor que organiza o desfile faz muito tempo) numa espécie de hipódromo. Não sei qual é a palavra certa, mas o lugar ficava afastado da cidade e tinha um cercado onde se podia praticar cavalaria. Bem aconchegante por sinal. Tomamos chá e eu pude explicar com meu nihongo torto que estávamos no ano do centenário da imigração e eu estava participando do desfile com muito orgulho disso tudo.

O salão do hipódromo - um lugar aconchegante para tomar um bom chá e apreciar as montanhas de Okazaki.

Os japoneses ficaram espantados quando montei, para eles é muito raro ver alguém que já tenha tido tal experiência. Como minha mãe é mineira, sempre íamos ao interior passear e eu, como todo moleque pentelho, adorava brincar com os cavalos. Duro foi explicar isso para os senhores que me assistiam, acho que eles entenderam que no Brasil andar a cavalo é normal! Talvez por que lá seja tudo mato mesmo. (Há muitas pessoas que pensam assim)

Fazia algum tempo desde que montei pela última vez, no Brasil, um pouco antes de embarcar para o Japão. Fiquei com receio de que os cavalos japoneses tivessem temperamento diferente dos mineiros. Como eu não queria dar vexame no dia da parada resolvi aceitar o convite e ir praticar por alguns minutos. Sem susto: o montar é exatamente igual aqui também (pelo menos para mim, que sou leigo). Eu consegui até correr, mas eu queria mesmo era empinar o cavalo!

ShigueS tem sangue Samurai nas veias!

No domingo de manhã, fomos todos nós, participantes principais, participar de uma celebração pela paz mundial dada no templo que fica ao lado do castelo da cidade. Ali assisti a uma sessão religiosa muito interessante, provavelmente xintoísta. O monge entoou orações pedindo pela paz no mundo e pelo sucesso do desfile. Ao final tomamos um pouco de saquê e ganhandos pequenos amuletos para trazer sorte.

Depois disso fomos a um hotel nas redondezas para o desjejum. No lobby havia recém-casados que estavam trajados com a tradicional vestimenta de casamento japonesa, muito bonita. A noiva com seu enorme chapéu branco apontou para nós como quem reconhecia algum artista de televisão. Subimos alguns andares e adentramos uma sala com uma mesa elegante, onde estava servido o almoço. Comida típica japonesa!

Nem preciso dizer que estava uma delícia. Claro, tem gente que não gosta de sushi e frutos do mar, mas a culinária japonesa é considerada umas das melhores do mundo e eu concordo. Haviam vários executivos da Mitsubishi Motors no almoço. O cargo de honra do desfile, Tokugawa Ieyasu, foi oferecido para um dos diretores da empresa na região. Na fábrica que ele dirige faz-se carros e turbinas do boeing 747. Foram todos mundo gentis todo o momento, na despedida eles nos presentearam com miniaturas de carros da Mitsubishi.

Depois de se estufar com a comida fomos levados até o centro esportivo de Okazaki, local que já estive em diversas ocasiões por conta dos treinos de aikido. Até encontrei meu sensei e meus colegas de treino por lá e pude me despedir. Havia uma placa apontando “participantes do desfile Ieyasu” que segui, entrando num enorme salão. Ali grande parte dos participantes estava se preparando para seguir o roteiro, tudo muito bem planejado, obviamente.

O evento vai contar com mais de MIL participantes! Incluindo crianças pequenas, mulheres e idosos. Vamos percorrer 4km pela cidade em plena primavera durante aproximadamente 2 horas, culminando no castelo onde teremos uma celebração e fogos de artifício ao final. Meu lugar, como Ii Naomasa, será à direita do Shogum durante todo o evento, no final brandaremos sacando nossas espadas samurai. Eu acho que vai ser muito divertido!

Fora eu, mais 5 ou 6 alunos da Yamasa irão participar do desfile. Quem tiver a oportunidade por favor não perca. Será no dia 6 de abril, domingão, às 13h na estação Higashi Okazaki da Meitetsu! Venham ver o ShigueS pagar mico de general samurai e não esqueçam suas câmeras fotográficas. Depois me mandem fotos, por favor!

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家康行列 2008 – ShigueS vira General Samurai

18 mar

Todos os anos na cidade de Okazaki, durante os primeros dias de primavera, acontece um evento peculiar chamado “Ieyasu Parade“. Okazaki é uma cidade de certa importância histórica no Japão por ser o lugar onde nasceu o primeiro grande shogun, Tokugawa Ieyasu, que dominou todos os outros lordes de sua época e unificou o país, trazendo mais de 250 anos de paz, onde a sociedade japonesa cresceu economicamente e, principalmente, culturalmente. É nessa época que foi criada a maioria das artes japonesas conhecidas no mundo todo.

Por esse grande motivo de orgulho, diversas entidades da região organizam anualmente esse evento, que consiste num desfile de armaduras samurais, bandeiras, kimonos e outros objetos usados na época que Tokugawa obteve sua glória. A idéia é reproduzir o mais fielmente possível como foi o retorno vitorioso do shogun depois da batalha de Sekigahara, que selou o destino da nação.

Acontece que as inscrições para esse desfile são super concorridas, uma vez que somente algumas vagas são abertas ao público. Muitas pessoas se inscrevem no intuito de virar um cavaleiro samurai ou uma linda princesa vestida de yukata por um dia. Há um júri, formado por pessoas de importante cargo na região, como gerentes de empresas, diretores de escola, reitores e afins, que decide quem vai ocupar essas vagas.

Virou costume participarem do desfile alguns estrangeiros malucos que gostam de samurais. Parece que tem bakkagaijin disposto de tudo para aproveitar as peculiaridades da cultura japonesa. Bem, adivinha quem se alistou?

家康行列

Aposto que hoje de manhã muita gente da escola pulou da cadeira quando abriu o jornal. Eis que lá está o velho ShigueS com seu sorriso maroto. Na notícia, ainda quentinha, os escolhidos para desfilar vestidos como heróis de guerra do passado. Eu marquei as passagens onde meu nome é mencionado. 2 vezes! Ali diz que Ii Naomasa será “interpretado” por Gabriel Shiguemoto, um brasileiro (!).

Olha aí os bastidores, as crianças competiram para a posição de neto de Ieyasu. Um dos jurados perguntou quais eram as matérias que elas mais gostavam na escola, história foi citada como “chata”. Bom saber que criança é criança em qualquer lugar.

Pois é, o espírito dos meus ancestrais devem estar felizes com tudo isso. Aguardem mais notícias sobre o evento em breve. No dia desse concurso eu fui entrevistado pela rádio e convidado para participar de um programa de tv local. Se eu conseguir os datos eu coloco aqui no blog. Vou caprichar para fazer bonito nesse desfile, com minha armadura vermelha vou brandar minha katana e fazer a maior algazarra. Pode deixar!

Okazaki – Berço Samuraico

4 set

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Certo, já faz um tempinho que eu não escrevo sobre as coisas que eu, ShigueS, ando fazendo por aqui. Calma! Não é fuga, nem isolamento, tampouco desdém pelo meu pequeno mas fiel público cativo. Apenas tenho deixado meus posts de lado um pouco para mostrar outras coisas que não giram em torno do meu próprio umbigo. Além do mais, tenho feito muitas coisas legais e elas têm se acumulado nos meus rascunhos. Com todo esse tempo usado para diversão (ops!) aprofundar meus conhecidos culturais sobre o Japão, acaba sobrando pouco para escrever um texto legal pra vocês viajarem comigo.

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Esse é um post especial para o Castelo de Okazaki, que por sinal será a próxima cidade a ter a honra da minha presença constante (mas isso é para outro post). Esse castelo tem uma história especial para o Japão. Isso por que foi nele que nasceu um dos maiores samurais da história: Tokugawa Ieyasu, o unificador do país no tempo da guerra entre feudos (1600 dc). Ieyasu foi um grande general e o responsável pela vitória do clã Tokugawa sobre todos os lordes japoneses da época, elegendo-se com louvor ao título, criado por ele, de Shogun (general supremo). Portanto essa cidade tem em sua história esse grande motivo de orgulho. Foi em Okazaki que nasceu o primeiro Shogun.

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Porém, mesmo para quem não é ávido por história antiga japonesa o lugar é uma ótima atração turística. Isso por que ele se situa ao lado de um grande rio contornado por majestosas cerejeiras que florescem todas as primaveras e que formam uma belíssima paisagem junto aos telhados sobrepostos do castelo. Também ao redor dele foi construído um parque bem completo, com templo, museu, teatro, lojas de souvenirs, restaurantes, parquinhos para crianças e toda uma área para passeio. Eu pude presenciar o espetáculo que é ver a sakura ao vivo. Os japoneses fazem isso constantemente, como um ritual que tem até nome específico: 花見 hanami (literalmente “observar as flores“).

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Como gosto da cultura antiga japonesa esse passeio foi bem completo, só foi uma pena que o castelo estava fechado para reformas. Porém acredito que ainda visitarei mais uma vez o parque e terei mais uma chance de ver como é lá dentro. Essa carência foi suprida deveras pelo museu Mikawa Bushi, que fica atrás do castelo. Ali é onde se encontram grandes tesouros de época, como mapas, bonecos, armaduras, esculturas e textos com dissertações sobre a vida e a guerra. Há até uma maquete animada mostrando como ocorreu a batalha que definiu o rumo da guerra, a de Sekigahara, cuja apresentação eu já fiz no post sobre o Castelo de Ogaki.

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Lindas construções de época, porém todas muito modernas, com sistema de segurança e ar condicionado. Na verdade o castelo não é o castelo original e sim uma reconstrução feita em 1959 seguindo as especificações originais. O edifício autêntico teria sido destruído durante a Restauração Meiji, em 1873. Apesar de ter muita coisa para atrair os turistas, como uma lojinha cheia de lembrançinhas de gosto duvidoso (tipo espadas de plásticos e amuletos reluzentes ao estilo “lembrança de Poços de Caldas“), o cenário me fez voltar alguns séculos no passado e pude vislumbrar como seria a vida naquela época (que os japoneses chamam de romântica, embora não veja onde).

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O melhor mesmo é o preço do passeio, 200 ienes, algo como 3 reais, isso só para entrar no museu. Uma vez lá dentro os turistas podem vestir seus filhos com réplicas de capacetes e armaduras e os armar com espadas e leques de guerra. Mas é claro que os turistas mais abobalhados também podem, com uma pequena insistência, pedir às sorridentes funcionárias do museu para ter seu momento de glória e vestir um belo capacete samurai! Mesmo que os tais adornos sejam feitos sob medida para crianças, com o agravante de serem crianças japonesas, o que os torna bem apertados para um “adulto” de 1,80m de altura.

Para terminar o passeio em alto estilo, um almoço em um restaurante tradicional dentro do parque, de frente ao rio com uma visão estonteante. Patos nadando, árvores centenárias e uma linda ponte vermelha compondo um grande quadro ao ar livre enquanto saboreio um somen (macarrão gelado) com beringela assada, tofu frito e miso. Meus colegas do aikido contam curiosidades mundo afora e eu me delicio com cada momento de aprendizado. O Japão pode ser um lugar mágico se você souber olhar pelo ângulo certo.

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Castelo de Ogaki

4 fev

Vista da Torre do Castelo

Não é segredo que minha grande admiração pelo Japão vem principalmente do tesouro cultural referente à época feudal, período dos samurais (na verdade eles existiram até a restauração Meiji, em meados de 1800 – embora eu acredite que o espírito deles ainda permaneça quase que intacto até os dias de hoje). Semana passada visitei o Castelo de Ogaki, meio por acaso confesso, enquanto estava passeando com o Guga pela região de Ogaki.

Castelo de Ogaki - Visão Geral

Aproveitamos para fazer uma rápida visita ao museu que o castelo abriga em seu interior. O Castelo de Ogaki foi construído no ano 4 da era Tenmon (1535) por Miyakawa Yasusada e foi designado como patrimônio nacional no ano 11 da era Showa (1936). Durante a segunda guerra mundial o castelo foi destruído pelo bombardeio das forças aliadas, sendo reconstruído posteriormente em 1959.

Castelo de Ogaki

Um fato interessante do Castelo é sua importância histórica para o Japão. Na região onde ele foi erguido, aconteceu a importante batalha de Sekigahara, que acabou por definir os rumos do Japão de outrora. Após a batalha, os feudos foram unificados sobre o comando de um general supremo, o shogum Tokugawa Ieyasu.

Museu dentro do Castelo

Interessante também notar o apreço dos japoneses pela sua história. Dentro do museu, muitas armas, armaduras e utensílios usados na época. Incluindo ilustrações complexas de mapas da região e pinturas dos figurões da casa. Para ajudar a explanação dos fatos, muitos vídeos e muitas maquetes, particularmente belíssimas.

O gigante assusta os pobre camponeses indefesos de Sekigahara

Uma coisa intrigante é a exposição das armas de fogo da época, as grandes vilãs dos fãs dos samurias. O guerreiro empregava sua vida inteira em treinamentos e concentração afim se tornar o soldado supremo, e na hora da batalha era facilmente derrubado por uma bola de chumbo vinda de um lugar distante e seguro.

O covardão com sua “arma”

Se você curte castelos samurai, veja também o post sobre o castelo de Okazaki.