Os que vão, os que ficam

15 mar

Shibuya na tarde de hoje: irreconhecível

Depois do terrível desastre do dia 11, o Japão mostra perseverança e seriedade, fatores essenciais na cultura japonesa. Mesmo com as linhas de trem e metrô da cidade de Tóquio comprometidas a apenas 20% de funcionamento, muitas pessoas encontraram uma maneira de ir trabalhar. Por maior que seja o medo de outro desastre, muitos ainda insistem em levar sua rotina. Uma maneira mostrar força e comprometimento com o trabalho.

Por conta do racionamento, as empresas estão funcionando somente com o mínimo necessário de energia. Prédios inteiros apagados por dentro durante o dia, e a noite letreiros e telões completamente desligados transformam a cara da capital. As ruas estão mais silenciosas, lojas e restaurantes vazios. Tamanho foi o esforço do povo japonês em economizar energia, que o rodízio foi suspenso em algumas áreas. Mesmo assim os residentes reclamaram e pediram para o governo continuar com o plano inicial.

A Torre de Tóquio, desligada.

Durante a crise, as maiores operadoras de telefonia do país disponibilizaram seus serviços gratuitamente. Como estava (e continua) difícil usar a rede celular, o sistema wi-fi, um serviço adicional, foi liberado. Telefones públicos também passaram a ser gratuitos. As máquinas de venda automatizadas, comuns nas ruas de todo o país, também foram abertas nas áreas afetadas. Comerciantes doam seus estoques de comida aos órgãos competentes. Ao invés de lucrar com a situação, muitas entidades dão o exemplo e agem com grande compaixão.

Na empresa onde trabalho e em outras que também são constituídas por estrangeiros, a diretoria liberou os funcionários para trabalhar onde se sentirem mais seguros. Ameaças de novos tremores, chuva radioativa, falta de água, luz e comida fez deixou muitos colegas preocupados. Algumas pessoas deixaram a cidade com sua família e outras já estão indo para o exterior. Nessas horas cabe a cada um fazer o que é melhor para sua segurança e de sua família.

Porém, rumores maldosos e exagerados estão gerando pânico, principalmente entre os estrangeiros, não familiarizados com situações delicadas como a de agora. Do que arriscar a vida na segurança incerta, muitos evacuaram a cidade. Japoneses inclusive.

“The only thing we have to fear is fear itself.” – Franklin D. Roosevelt

Os tremores ainda podem continuar por semanas. Falta água em alguns bairros, há racionamento de energia, desabastecimento de comida, transporte público comprometido, aeroporto congestionado, o governo parece estar escondendo a verdade… não se pode culpar quem quer ir o mais longe possível dessa confusão. Mas há também aqueles que permanecem em Tóquio. Seja por orgulho, por preguiça, por otimismo, não importa.

Eu estou entre eles. Que seja pelo bem!

imagens: ShibuyaTokyo Tower

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9 Respostas to “Os que vão, os que ficam”

  1. Leony 15/03/2011 às 22:56 #

    Eu também ficaria se estivesse aí. Não podemos simplesmente sugar tudo o que tem de bom em outro país e na hora que a situação aperta se mandar de volta pro Brasil.

  2. Ryot 15/03/2011 às 23:15 #

    que bom que não aconteceu nada com você! to ate agora pasmo com essa situação toda, realmente triste.

  3. Jonas 15/03/2011 às 23:54 #

    Força Shigues! Estamos acompanhando e rezando muito para que o pior já tenha passado e que esse povo consiga novamente se reerguer diante de tamanha calamidade.

    • ShigueS 16/03/2011 às 22:39 #

      Observe e verá a força do povo japonês. Como diz um provérbio do Aikido: cair nove vezes, levantar dez.

  4. Cristiane Araulo 16/03/2011 às 06:06 #

    Pois é…e quando ocorreu aquele desastre no Rio, a galera estava vendendo água a preço de petróleo…
    Igual aí…
    Força Shigues!

  5. Grazi-k 16/03/2011 às 19:30 #

    A questão não é ser patriota.É instinto de sobrevivência. Moro em saitama, e tudo isso tem preocupado. Mas não tenho como abandonar tudo. Até poderia, mas moro com meus pais e de forma alguma deixaria eles. Então é se prevenir como puder e rezar pras coisas se acalmarem…

    • ShigueS 16/03/2011 às 22:38 #

      Grazi, eu confesso que sinto um pouco de patriotismo sim. Mas mais que isso, sei que muita gente fica com medo das notícias por causa do sensacionalismo da impressa. Também tem gente que não lê inglês nem japonês, portanto não sabe bem o que está acontecendo e acaba acreditando em rumores infundados. Latinos, como nós, tem os sentimentos à flor da pele por natureza.
      Num momento como esse, tudo o que queremos é segurança. A nossa e principalmente dos nossos entes queridos. Não tenho parentes no Japão, mas se tivesse, ficaria com eles onde quer que estivessem. Mesmo em Fukushima ou Sendai. Por isso apoio sua decisão de ficar com seus pais.

  6. Talita Louise 17/03/2011 às 08:36 #

    Boa sorte Shigues, que nada de mal te aconteça, vamos torcer para que esses desastres parem.

  7. Lilian Kano 24/03/2011 às 04:42 #

    Meus pensamentos também estão com vocês, no Japão. Depois de tantos anos que vivi no país, e com tantos amigos e familiares por aí, é muito estranho para mim, acompanhar esses acontecimentos de longe e seguir a vida com normalidade. Fico agoniada com o sentimento de impotência.
    Por outro lado, entendo que com o controle e racionamento de água, comida e energia, o país agora não precisa de mais consumidores em potencial. E nem de notícias sensacionalistas que tiram o foco de onde mais se necessita.
    Para quem está longe como eu, há outras maneiras de ajudar. Aqui estão listadas algumas sugestões: http://g1.globo.com/tsunami-no-pacifico/noticia/2011/03/saiba-como-ajudar-os-afetados-pelo-terremoto-no-japao.html
    E também no website da Cruz Vermelha: http://www.cvbsp.org.br/inicial.html

    Shigue, obrigada pelo update. Muita força e tudo de bom!

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