Hiroshima 65 anos

18 ago

Dia 6 de agosto completou-se 65 anos desde a detonação da primeira e segunda bombas nucleares, em Hiroshima (6 de agosto de 1945) e Nagazaki (9 de agosto de 1945), respectivamente.

Mês passado estive eu em Hiroshima e aprendi muitas coisas importantes sobre a vida, e a morte. Desde então, venho pensando em registrar essa experiência em forma de texto. O conteúdo desse post é interessante, mas sei também que é algo difícil de digerir por se tratar de abnomináveis horrores da guerra.

Meu relato está na continuação do post. Boa leitura!

Encontro com um Hibakusha

Fazia bastante  sol naquela manhã de Julho. Já era verão, mas podia-se andar com bastante tranquilidade pelas ruas sem se incomodar tanto com o calor. Mesmo depois de uma longa viagem, a ansiedade em conhecer a histórica cidade de Hiroshima me dava ânimo para prosseguir. Meu destino era o Prédio de Promoção Industrial, símbolo da paz e lembrança de um trágico acontecimento da cidade, do país e também do Mundo.

Como companhia tinha apenas um par de guias de viagem, herdados de uma amiga que acabara de retornar ao seu país. Graças a eles, e a simpática recepcionista do meu Hostel, encontrei facilmente o “A-Dome”. À primeira vista, senti uma sensação estranha, como aquela que se sente ao ver um túmulo bem ornamentado num cemitério. Não era deslumbro, nem surpresa, mas um misto de pena e assombro.

Depois de alguns instantes observando as incrivelmente conversadas ruínas, resolvi tirar algumas fotos como recordação. Logicamente, seria ideal que eu estivesse presente em pelo menos uma das fotos. Sendo ainda cedo, haviam poucas pessoas por perto, então procurei algum lugar para posicionar a câmera e tirar um auto-retrato. Como o monumento fica em frente a um rio, os lugares para se apoiar a câmera eram escassos.

– Você quer que o ajude com a foto? – era um senhor japonês com um simpático sorriso no rosto. Aceitei prontamente, já que minhas tentativas sozinho haviam falhado.

– Oh! É uma câmera Ricoh GRIII. Igual a minha, veja só! – disse, tirando de sua bolsa uma máquina fotográfica do mesmo modelo. Após a foto, agradeci e já ia me despedindo quando percebi o crachá pendurado em seu pescoço: “Sobrevivente da Bomba Atômica“. Franzi a testa e perguntei se ele era um dos guias voluntários que ouvi falar.

– Sim! Você gostaria de ouvir minha explicação sobre Hiroshima? É de graça e não demora muito. Eu posso te mostrar onde a bomba caiu também.” – indagou, servil.

– Por favor! – respondi euforicamente. Ele então caminhou alguns metros e se sentou sob a sombra de uma árvore, ao lado das ruínas.

Seu nome era Kosei Mito. O Sr. Mito trabalhara como guia no Museu Memorial da Paz, apenas alguns metros dali. Ele me disse que havia desistido do Museu por que havia muita coisa que eles não mostravam lá, a verdade cruel do que acontecera naquela manhã de agosto, há 65 anos atrás.

– Veja bem, como é a imagem dos EUA no Japão atualmente? São heróis, são modelos a se seguir. Tudo é América, os jovens adoram, idolatram. Mas eles esqueceram o que aconteceu aqui. Meu trabalho é relembrar o que aconteceu, para que nunca mais se repita.

Dito isso, o Sr. Mito tirou de uma bolsa duas grandes pastas azuis. Numa das folhas havia uma tabela com números e nomes de países. Ali estavam descritas as nacionalidades de todas as pessoas que ouviram sua história. A com mais visitantes era a Australiana.

– E você filho? De onde é? – perguntou.

– Sou brasileiro, mas neto de japoneses – respondi.

– Um sansei? Vejam só um nikkei  brasileiro pessoal! – disse animado aos outros veteranos que estavam se aglomerando aos poucos perto de nós.

– Vejamos, brasileiros… não há muitos veja. Apenas algumas centenas.

Apesar de haverem muitos brasileiros na região, o número de ouvintes era baixo. Imaginei que seria pela dificuldade da língua, mas o motivo nunca ficou muito claro. Talvez algumas pessoas não tenham interesse em ouvir histórias assim, mas para mim era uma honra ouvir os fatos de uma pessoa que os vivenciou. Depois de algum tempo porém, entendi a razão da dificuldade em ouvir o que o guia tinha a dizer.

Relatos do Fim do Mundo

Nas pastas, muitos mapas, muitos artigos de jornal da época, fotos e também desenhos chocantes feitos pelos sobreviventes. Encontrei desenhos similares no Museu também, mas os dessa pasta eram de alguma maneira mais fortes. O desenho abaixo estava tanto na pasta do Sr. Mito quanto no museu:

Ilustração de Sueko Sumimoto retrata 7 de agosto de 1945, 9h da manhã.

O desenho acima é entitulado “Mãe chama por seu filho entre os corpos empilhados de jovens estudantes”. O título já é impressionante, mas há muitos detalhes sórdidos. Sueko Sumimoto tinha 37 anos quanto presenciou a cena acima, mas só conseguiu retratá-la 30 anos depois, aos 67 anos.

Naquele local haviam inúmeros estudantes de 13, 14 anos caídos pela margem e também boiando no rio, alguns eram arrastados pelo correnteza no leito do rio. Em cada degrau da escada, jazia uma pilha de mortos. Meu peito dói ao lembrar de seus rostos inocentes de criança.

Ali chamava por seu filho uma mãe, que era eu.

Essa foi apenas uma das inúmeras histórias que ouvi do Sr. Mito e li no Museu. Já havia ouvido falar de como fora terrível a detonação da bomba, mas não havia sentido o quão medonho é para quem sobrevive. Muito se fala sobre os aspectos tecnológicos da Bomba, de graus celsius, de quilômetros, do poder destrutivo, mas o mais impressionante mesmo é o que acontece com as pessoas. O fator humano da história.

O Sr. Mito sobreviveu por que sua mãe estava a 7 km da cidade quanto a bomba caiu. Ela estava grávida de Kosei a 4 meses e por isso havia sido evacuada para vilarejos afastados. Porém seu pai e seu marido estavam em Hiroshima na hora da explosão. Havia por perto um monte de onde se enxergava toda a cidade. Preocupados, os vizinhos juntamente com a Sra. Mito o escalaram para ver o que havia acontecido. O que viram foi um mar de chamas cobrindo a cidade.

Haviam em Hiroshima fábricas de munição, quartéis do exército, faculdades e escolas conceituadas, o que fazia da cidade um grande alvo durante a Guerra. Temendo um bombardeiro, crianças pequenas, anciões e mulheres grávidas eram evacuadas para regiões afastadas. Porém, como as escolas e os postos de trabalho ficavam em Hiroshima, muitos passavam o dia na cidade. Na época, com o Japão praticamente vencido, não havia mão de obra suficiente para ajudar na manutenção da cidade. Por isso estudantes primários juntamente com seus professores ajudavam nas obras de demolição preventivas (eram chamados de Gakutodouin). Especula-se que na hora da explosão mais de 6 mil crianças estivessem trabalhando nas ruas da cidade.

– As pessoas que morreram na hora da explosão tiveram sorte – disse o guia. – O pior veio depois. A temperatura do ar era tão alta que queimava o pulmão por dentro. A pressão se inverteu e retraiu com força o ar em direção ao centro. Os olhos das pessoas saltaram fora de suas órbitas e órgãos internos explodiram e saltaram para fora do corpo.

Haviam desenhos descrevendo esses terríveis momentos. O ar de desenho infantil, feito com giz de cera e traços tortos, me dava enorme desconforto. Como se tivessem sido feitos por crianças.

Sr. Mito também contou que algum tempo depois, quando as tropas americanas chegaram na cidade para avaliar os estragos, o exército americano construiu um centro médico para atender as vítimas. Acontece que não havia nenhum tratamento nem medicação. Era simplesmente uma estação para fotografar e registrar os efeitos da radiação entre os sobreviventes da explosão. Os americanos também recolhiam recém-nascidos com mutações genéticas e os enviavam para estudos mais detalhados nos Estados Unidos.

– Muitos meses depois da bomba, muitos morreram em decorrência dos efeitos da bomba. Nada se sabia sobre o que podia acontecer. Ora, era a primeira vez que se tinha vítimas de uma explosão atômica. Por isso os americanos estudavam qualquer caso de doença fosse relacionada a isso. Certa vez, uma garotinha morreu depois de semanas em tratamento. Houve o funeral e na hora de carregar o caixão os parentes se assustaram: estava leve como se a garota estivesse oca por dentro. Provavelmente os cientistas americanos haviam retirado seus órgãos internos para os dissecar nos EUA.

Little Boy

O Sr. Mito também mostrou fotos dos pilotos do B-29 Enola Gay, o bombardeiro que jogou a bomba atômica.

Essa é uma foto rara. – apontou para o rosto do piloto – Ele está sorrindo. Isso eles não querem mostrar.

O guia me mostrou um fato interessante sobre “Little Boy”. Nas laterais da bomba haviam dispositivos que lembravam antenas de tv. Na época as casas japonesas tinham antenas nos telhados. Ele acredita que as antenas da bomba, ao se aproximarem das antenas das casas, receberam um sinal que causou a detonação. Isso explicaria o porquê da explosão ter acontecido 580m acima da superfície.

– Eles haviam estudado nossos costumes muito além que imaginávamos.

A explosão veio como uma surpresa para todos. O exército japonês costumava avisar a população ao soar uma sirene indicando ataque aéreo. Mas naquele dia essa sirene tocou apenas alguns instantes e cessou. Isso por que não se acreditava tratar de bombardeio. Haviam apenas um B-29 e dois caças de apoio. O exército na região estava tão dilacerado que não havia mais bateria anti-aérea para espantar os intrusos e tudo o que se podia fazer era observá-los cruzando o céu.

– Já não tinhámos mais como lutar. Não havia um caça japonês sequer para afugentar os americanos. Não havia a mínima necessidade de atacar Hiroshima àquelas alturas.

Hiroshima antes e depois da explosão. Clique para ampliar a foto.

Após conferir os fatos, ficou evidente para mim que a detonação da bomba atômica teve motivação política. Os EUA haviam investido bilhões de dólares no Projeto Manhatam em busca da divisão do átomo. Os contribuintes americanos cobravam resultado do governo. Além disso, os Russos também estavam desenvolvendo sua própria bomba e com a guerra já no fim as duas potências precisavam mostrar quem tinha o maior poder de destruição afim de ditar as regras dali em diante. Não foi para vencer o Japão, e sim impressionar a União Soviética e dizer ao mundo que os EUA haviam descoberto o poder atômico, e ele poderia ser repetido, conforme demonstrado 3 dias depois, em Nagazaki.

– O alvo lógico dos americanos seria Quioto. Lá era onde os generais estavam reunidos. Os políticos e até mesmo o Imperador do Japão. Com essa bomba eles poderiam ter acabado com o Governo num só golpe. Mas isso afetaria a política de ocupação pós-guerra. Se eles assassinassem o Imperador, teriam como inimigo cada japonês. Assim, eles pouparam Kyoto e resolveram demonstrar sua força sobre nós.

Antes da Segunda Guerra, o Imperador do Japão era reverenciado como um Deus vivo. Acabar com uma linhagem milenar iria prejudicar a imagem dos americanos. Por isso, o General McArthur fez questão de manter o posto de Hirohito quando se apossou do Império. Amenizando o choque de ter seu país tomado por estrangeiros pela primeira vez em 2.500 anos de história.

– Os americanos foram muito inteligentes. Vendo por hoje, o plano deu certo. Os Japoneses os amam!

O Memorial da Paz

Depois de me levar para conhecer o local onde a bomba explodiu, o “ground zero”, em cima de um hospital, nos despedimos. Antes de ir, porém, Sr. Mito me entregou um pedaço de papel onde havia seu endereço de e-mail e alguns links com fotos e textos sobre Hiroshima.

Prossegui pelo parque até passar pela Chama da Paz, chama que só deve será extinguida quando a última bomba nuclear for desativada. Fiquei imaginando há quantos anos essa chama está acessa e mais tantos ficará.

O bilhete para entrar no Museu custava um valor irrisório. Aproveitei então para alugar um guia eletrônico com explicações em português. O museu estava lotado de estudantes e turistas de todo o país. Muitos estrangeiros também. As crianças levavam consigo um caderno onde tomavam notas dos itens principais do acervo.

Lá dentro muitas coisas me impressionaram. Em especial as roupas queimadas de pessoas que morreram logo depois da explosão e que foram doadas por parentes ao museu. Havia também amostras de paredes e pedaços de construção que foram seriamente afetados pelo impacto.

Detalhe de uma parede alvejada por estilhaços provenientes da explosão

O impacto foi tão forte que fez pedaços de vidro perfurarem concreto

A cada esquina que virava, ia ficando mais e mais enjoado com o que via. As histórias iam se agravando a medida que se adentrava no museu. Havia um lance de degraus que foram retirados de um banco. Podia se ver uma mancha escura, parecida com uma sombra. Ali estava sentado um homem que foi atingido em cheio pela radiação.

Esse corredor simulava a situação que enfrentaram os sobreviventes. Havia som de incêndio e pessoas gritando por ajuda.

Se o impacto e o calor foram capazes de entornar estruturas de aço, imaginei o que fariam à frágil pele humana. Sendo a maioria das casas da época feitas de papel e madeira, fica fácil entender o tamanho da destruição.

Cada item no Museu possuía uma história. Por trás de cada história, pessoas, famílias. É algo que faz pensar sobre o quão importante é viver em uma era de Paz. Era terrível olhar cada item, mas necessário aprender sobre o que havia acontecido.

Uma parede manchada pela chuva negra.

O Sr. Mito comentara sobre a “chuva negra”. Ela caia frequentemente nas semanas seguintes a explosão. Apesar de ser sempre referenciado como algo relacionado com aquela época, ele mostrou um recorde de jornal desse ano, mostrando que a chuva havia caído novamente.

Conclusão

Apesar do texto longo, ele não cobre nem metade das coisas que vi e ouvi em minha viagem a Hiroshima. Naquele dia vi dezenas de ônibus escolares lotados de estudantes de todas as regiões do Japão. A cidade é um marco e um símbolo da importância da paz no mundo. É parada obrigatória para qualquer pessoa que se interesse em história.

Se você tem a chance de visitar Hiroshima, eu recomendo que o faça. Não só pela importância histórica, mas pela lição de vida que a cidade prega em seus visitantes. Muitas coisas por lá são gratuitas, ou quase de graça.

Os links que o Sr. Mito me passou são os seguintes:

Texto de Dona Sauerburger, uma americana que traduziu o relato da mãe do Sr. Mito para o inglês.

O blog do Sr. Mito, com textos em japonês e fotos muito bonitas de Hiroshima que ele mesmo tirou.

Quem quiser saber mais alguma coisa sobre Hiroshima, posso tentar ajudar como puder. Tenho muitas fotos que tirei por lá e posso compartilhá-las com quem tiver interesse.

Paz na Terra!

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5 Respostas to “Hiroshima 65 anos”

  1. Cristiane 18/08/2010 às 22:14 #

    Parabéns pelo texto, Gabriel!
    Eu adoro história e achei muito bacana a forma como você descreveu e ilustrou esse episódio tão triste.
    É terrivel pensar que o ser humano é tão pequeno, sórdido e malvado.
    Só nos resta manter a esperança de um mundo melhor e em paz; apesar de termos demonstrações diárias de que isso dificilmente irá acontecer um dia. Temos que permanecer crentes de que a Chama da Paz, um dia irá se extinguir.
    Beijos,
    Cris.

  2. Arnaldo 22/08/2010 às 11:30 #

    Prezado Gabriel,

    Muito obrigado por compartilhar com todos estas experiências fantásticas. Não sou descendente de japoneses mas desde pequeno tenho nutrido uma grande admiração por este povo e no início de 2010 realizei, mesmo que por apenas 15 dias, o meu sonho de conhecer um pouco deste maravilhoso país. Estive em Tóquio e Kamakura em fevereiro e espero retornar em breve, desta vez com esposa e filho, para conhecer lugares como Hiroshima.

    Um abraço de seu seguidor (via RSS),

    Arnaldo

  3. Luiz henrique 10/12/2010 às 08:18 #

    O que você chama de chama da paz
    eu chamo de uma chamaque matou 60mil
    pessoas e deixou outras 100 mil feridas
    isso que você chama de paz?

  4. Patrícia Oliveira 10/12/2014 às 09:50 #

    Estou actualmente a fazer um ensaio para a cadeira de Crise, Trauma e Memória para a licenciatura em Antropologia, em Portugal. O seu texto,embora como disse lhe faltasse muito conteudo, abordou o essencial, e ainda me dói o peito do vídeo em forma anime que partilhou. O ser humano, tanto pode ser adorável como incrivelmente cruel. Espero que apaguem a chama da paz brevemente, isso sim seria um verdadeiro marco histórico. Obrigada pela sua partilha!

Trackbacks/Pingbacks

  1. Miyajima – A ilha sagrada « - 24/09/2010

    […] a ilha. Além de estar acessa a mais de 8 séculos, a mesma chama foi usada para acender a Chama da Paz em Hiroshima. Enquanto fotografava o local, vi um jovem monge surgir de um casebre próximo e colocar lenha na […]

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