Estrangeiro em terra estrangeira

19 maio

Na mesa, fartura de comida brasileira: arroz, feijão carioca, farofa, mandioca, salgadinhos, salada e muitos outros detalhes que passam despercebidos quando estão servidos. Espetos de churrasco dançam entre as mesas lotadas lançando seu perfume tentador por onde passam. Animadas, garotas sorridentes requebram harmoniosamente ao som de pagode. Gols espetaculares de Ronaldo iluminam o telão. É possível relembrar a copa do Penta de 2002. A caipirinha, suando, espera para ser engolida junto com as mágoas do dia.

Quantos de nós, brasileiros, já vivemos essa experiência?

De tantas vezes que participei de churrascos, festas e mesmo almoços em churrascarias, todo o ritual acabou-se tornando tão natural quanto misturar o arroz com feijão. Porém, dessa vez havia algo diferente: de brasileiro havia apenas eu e mais duas ou três pessoas no restaurante inteiro, o restante todos japoneses. Apesar dos esforços para se recriar um ambiente típico brasileiro (insira “carioca” aqui), senti-me imensamente deslocado. Embora a comida estivesse maravilhosa, as pessoas ao meu redor conversavam em japonês, riam e se comunicavam com gestos típicos e a aparência delas não enganava sua nacionalidade. A rodela de limão na capirinha estava intacta, sem ter sido socada, e a bebida era “light”, sem um pingo de açúcar. A música, entoada quase que sem sotaque por um pagodeiro japonês, soava autêntica, mas que eu nunca ouvira antes no Brasil.

“É Zeca Pagodinho” respondeu minha colega japonesa. Ela e a amiga são apaixonadas por música brasileira (leia-se “samba”), e riram muito quando tentei explicar em japonês que do lugar de onde vim esse tipo de música é discriminada e até mesmo considerada brega. Foi uma sensação muito estranha ver todos aqueles estrangeiros cantando juntos frases como “na favela a gente aprende a ser feliz” e “viva o Salgueiro, não deixe o samba morrer”. Imagino como eles vêem a favela e que tipo de vida se leva lá. Eu nem sequer consegui acompanhar as batidas de palma junto com a melodia, mas as meninas, japonesas claro, rebolavam e giravam alegremente pelo salão. Numa tentativa de comprovar minha legítima cidadania brasileira, coloquei-me em vão a tentar descobrir o ano das copas que apareciam no telão. Todos jogos da seleção brasileira que assisti com amigos num ambiente muito parecido com o que estava naquele momento. Não lembrei dos anos, mas dos rostos alegres e familiares que riam e choravam em meio às reviravoltas do futebol. “Joga bola?” perguntaram animadas – “Só no video-game” respondi me afundando na bebida.

Um ambiente que deveria me proporcionar familiaridade, mas tudo que senti foi solidão. Para responder o porquê disso eu precisaria definir o que é ser brasileiro, um grande enigma praticamente insolucionável. Agora, encarando a tela do computador me pergunto se ser brasilerio é jogar futebol, sambar, morar no Rio, ouvir pagodão e fazer batuque até com cinzeiros. Se for, então eu não sei o que sou. Nasci em São Paulo e posso dizer que vivi uma rotina bem agitada, cheia de festas, reunião de amigos e encontro de pessoas, mas nunca esses elementos fizeram parte do meu dia-a-dia. Também falo por muitos amigos e colegas que tenho no Brasil, mesmo no Rio. Gostaria de encontrar o responsável por pintar o Brasil com essas cores. Tachar um país com tanta variedade com os clichês mais óbvios do mundo. É como dizer que no Japão só exista o Monte Fuji e as lutas de sumô ou que a África se resuma à safaris e vida selvagem. É reduzir toda uma vasta gama de lindas cores a apenas verde e amarelo. E eu que pensei que a beleza do Brasil era a diversidade.

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8 Respostas to “Estrangeiro em terra estrangeira”

  1. jeferson 19/05/2009 às 10:17 #

    ola! shigues , aqui vai o meu primeiro comentário:

    sou brasileiro ,nunca sai daqui do brasil ,mas acho que sei o que você sente .
    neste ano, no carnaval estava vendo a cobertura pela tv sobre as mais diversas formas de carnaval, em cada lugar é diferente e percebi que a nossa cultura é tão rica que nem nós conhecemos toda a cultura brasileira.
    agora imagino você longe daqui vivendo num lugar onde o que chega do brasil, é o que chega pelas notícias, clichês , cinema ,violência, é só isso o brasil? mas nós também fazemos isso ,o que sabemos da africa? e da russia? e dos nosso vizinhos argentinos?

  2. Cristiane 19/05/2009 às 16:19 #

    Bom, uma vez conversando com uma americana pela internet há alguns anos (até então, nunca tinha saído do Brasil), ela me perguntou (clichê) se eu morava numa floresta. Imagino que no meio da Amazônia não exista conexão pra intertet, ainda mais há 7 anos atrás.
    Infelizmente nosso país resume-se a bundas, carnaval, caipirinha e carnaval. Muito culpa do próprio país, que só divulga essas coisas (dos lugares que conheci fora do Brasil, só vi cartazes com fotos do carnaval), mas acredito que o fato de sabermos alguma coisa de diversas culturas, se deve a nós mesmos, brasileiros, que sabem que o mundo não se resume a esse pedaço de chão.

  3. Márcio 20/05/2009 às 04:22 #

    Não precisamos sair do Brasil para ver que essa é a única imagem do país que é divulgada.
    Sou do RS, e quando assisto TV por aqui eu só vejo Carnaval do Rio de Janeiro, Carnaval de Salvador, Festa do Boi de Parintins, TODAS as festas tradicionais/típicas do nordeste brasileiro, etc. E, quando alguém ousa falar em festas tradicionais do sul do país, a coisa é tratada como algo do outro mundo, tipo uma europa dentro do Brasil.
    Não me entenda mal, eu respeito as diversas culturas do meu país, mas eu moro nele e acho que a cultura do sul é bem desrespeitada pelos meios de comunicação. Qualquer estrangeiro que visita a minha terra fica espantado ao constatar que aqui não tem samba (pelo menos não tanto quanto no Rio), o futebol é jogado como na argentina ou uruguai, e que as danças típicas mais se parecem com danças européias anacronicamente perdidas no tempo. E, sim, mesmo assim isso aqui é Brasil. Ah, tá bom, o pessoal do sul exporta churrascarias para o resto do mundo, mas é tão estranho ver um chinês usando bombacha e servindo picanha no espeto para os fregueses…..

  4. brasileiro? 20/05/2009 às 17:00 #

    tao verdadeiro seu depoimento…me sinto exatamente da mesma maneira,nunca convivi ou participei de muitas coisas que personificam a imagem do “brasileiro”no exterior!acho que no caso de descendentes isso se evidencia ainda mais pela cultura de nossos pais e avos,mas tambem desconfio que essa nao seja a imagem que os proprios brasileiros tem deles mesmos e sim uma fabricada pela midia e imposta a populacao…

  5. marucio 21/05/2009 às 16:34 #

    quer um exemplo,assiste isto aqui:

  6. Jonas Ribeiro 22/05/2009 às 04:07 #

    Infelizmente a internet, ou a TV, ou seja lá qual for o meio de comunicação, por ser superficial (aliás como quase tudo atualmente), pega fórmulas prontas, imagens construídas nos anos 50, e definem estes estereótipos e repassam para o dito “senso comum”. Pelo menos percebemos que ocorre no mundo inteiro, e é uma problema generalizado da midia de todos os países. Mas nem sei se é possível modificar essa imagem, no caso do Brasil, afinal o governo vende essa imagem, é o nosso diferencial. Teoricamente essa pobreza maquiada com caranaval e floresta só tem a “bunda” brasileria, ops…a cara brasileira.

  7. Dudico 25/05/2009 às 07:54 #

    AEEEE, bunda, bebida e putaria… mais uma vez o retrato do Brasil no exterior! Ops, esqueci a violências e os animais selvagens q vemos na ruas tds os dias né? Pff, triste mesmo saber q AINDA pensam assim… e q NINGUÉM (leia-se, governo e coisas do tipo) faz nda pra mudar isso…
    Mas voltando e comentando o último parágrafo, vc continua quadrado né S! haha… se sentir deslocado num ambiente desses é falta de tomar essa caipirinha ae q tava moscando (q ao meu ver, era pinga com limão!) e ir dançar com a galera… e não me venha com a velha desculpa da língua que pra isso vc nem precisa saber falar seu nome! rs
    Keep goin’ (or walkin’, Mr. Jonnie)!

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