Google revela Tóquio obscura

12 maio

Gritos de horror, urros de indignação, repulsa e vergonha. O começo de maio foi agitado com a notícia de que mapas antigos de Tóquio haviam sido adicionados ao popular software Google Earth. Graças à imposição de imagens, tornou-se possível visualizar a capital japonesa de centenas de anos atrás com precisão assustadora. A localização de bairros, parques, pontes e prédios de Edo sobreposta sobre a cidade atual permitiu determinar pontos históricos de outrora para os olhos de qualquer curioso capaz de segurar um mouse.

O que a Google não contava era com a resposta da sociedade japonesa que, ofendida e sentindo-se violada, moveu processo contra a gigante alegando que a empresa estaria promovendo discriminação racial. Mas como um mapa antigo, projetado e arquivado pelo próprio povo japonês, pode de alguma forma causar dano a alguém?

Ao que parece, a publicação do mapa virtual revelou um lado histórico cujo os japoneses tentam a todo custo esconder. Há centenas de anos, no Japão feudal do Xogum, a sociedade era dividida por castas. Era proibido mudar de classe social uma vez nascido dentro da mesma, portanto um samurai que nascera samurai, morreria samurai e assim por diante. Assim como havia a alta classe, os sacerdotes e os comerciantes, existia também uma classe baixa, chamada “burakumin“. Mais do que discriminados pelo restante das castas, os burakumin eram considerados os mais baixos dos seres humanos, a ralé, e eram comumente chamados de eta (穢多 “massa imunda”). O motivo desse ódio vinha pelo fato desse povo executar trabalhos considerados “espiritualmente impuros” por lidar diretamente ou indiretamente com a morte. Executores, açougueiros e artesãos de couro encaixavam-se nessa classe e viviam em casebres distantes do centro urbano daquela época.

eta eta eta

Na imagem acima pode-se ler etamura (穢多村) – a vila do povo imundo

Com o fim do Xogunato a divisão da sociedade por castas foi abolida e todos foram legalmente considerados cidadãos comuns. Mais tarde com o desenvolvimento dos centros comerciais e a criação de grandes cidades, os pacatos vilarejos dos burakumin foram engolidos pelo progresso. Veio a abertura do país ao exterior, desenvolvimento industrial, a guerra, a retomada econômica e ainda hoje se fala de castas de antepassados. Se muitos se gamam de descenderem de famílias samurais ou de artistas famosos, uma minoria da população japonesa tenta dignamente manter o orgulho de se originar de clãs burakumin. No Japão, estima-se que os burakumin somem 3 milhões de pessoas, de um total de 127 milhões.

O simples fato de ter um parente remoto que foi um dos eta pode trazer sérias consequências perante à sociedade, desde conseguir um cônjuge até mesmo influenciar uma oportunidade de emprego. É amplamente difundido que os burakumin, assim como outras minorias no Japão, não são dignos de confiança e até de respeito. Como todo preconceito e discriminação racial, o ódio impensado e a ignorância impedem qualquer ação racional. Essa série de dificuldades forçou os descendentes a criarem uma rede de apoio altamente organizada que defende os interesses do grupo perante o restante da sociedade japonesa. Foi esse mesmo grupo que se sentiu ofendido com o aplicativo que mostra com exatidão onde se concentram as famílias burakumin. Por uma razão óbvia, muitas pessoas preferem passar incógnitas por esse rótulo e se sentiram expostas quando seus lares foram revelados no Google Earth.

Para um estrangeiro é complicado entender como algo que ocorreu há centenas anos ainda possa influenciar uma cultura moderna, que nem ao menos tem laços fortes com a religião. No caso de um brasileiro como eu, é ainda mais complexo fazer tal distinção de classe simplesmente pela ascendência da pessoa, e não por nível social, cultural e até mesmo étnico, já que os burakumin são japoneses autênticos, não diferenciando em absolutamente nada em relação aos demais. Se no Brasil temos preconceito contra alguém pela religião, cor de pele, modo de falar, jeito de vestir e até mesmo por gosto musical, é algo fora do comum ver diferentemente uma pessoa que poderia muito bem ser sua colega de trabalho ou escola só por que o tataravô fazia bolsas de couro.

Ao que parece a Google pediu desculpas pelo incômodo e pronunciou que nunca foi a intenção causar transtornos ou incentivar a discriminação. O mapa foi censurado, tendo as partes mais alarmantes apagadas. Se você lê inglês e gostaria de mais detalhes sobre o incidente, recomendo que leia o link de fontes abaixo. Especialmente esse post, onde pode se ter uma visão ainda mais ampla do problema dos burakumin lendo os comentários.

Fontes: Japan Times, Japan Probe, Wikipedia

ps: Eu não consegui encontrar o aplicativo dentro do Google Earth, apesar de ter procurado pela internet por mais de uma hora. Se alguém aí conseguir achar como ativa o mapa, deixe uma explicação nos comentários por favor!

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8 Respostas to “Google revela Tóquio obscura”

  1. Caruso 12/05/2009 às 06:11 #

    É…ShigueS também é cultura!!! Ficou duka esse post!!! Me amarrei na história, na matéria e na análise! Muito maneiro!

  2. guilhermeatencio 12/05/2009 às 06:34 #

    Cara, estou seguindo teu blog faz pouco tempo mas estou maravilhado. Você escreve muito bem e fala de coisas muito interessantes! Parabéns!

  3. satoman 12/05/2009 às 14:22 #

    Uepa
    Bem interessante isso!

    Achei comofas/:

    (pra versão em purtugueis)
    Procure em Galerias –> Mapas históricos Rumsey e habilite o submenu Map Finder.
    Vão carregar no globo várias Rosas dos Ventos, clique em uma e vai abrir uma janela. Clique no thumbnail e vai abrir na pasta Lugares uma subpasta chamada Lugares Temporários o nome do lugar (ex. Tokyo_1799).

    Enjoy!

    Abraço!

    • Anônimo 12/05/2009 às 20:22 #

      Poxa Satoman, muito obrigado! Vou testar assim que chegar em casa!

  4. Erica 14/05/2009 às 08:35 #

    Nossa, realmente essa historia eh impressionante! Mostra bem como os japoneses sao tradicionais(para nao dizer preconceituosos!)

  5. James Lewis 19/05/2009 às 06:42 #

    Que história… assustadora, para nós que somos o futuro.

    Há quem diga, que para prever o futuro, há que olhar para o passado.

    Não existem castas, mas existem “classes sociais”.

    PS: estou fan do teu blog, desde que o encontrei após equacionar visitar o Japão! Continua com estas histórias!

  6. Mystvan 12/06/2011 às 04:23 #

    Voce se esqueceu de mencionar não apenas a discriminação racial e social em relação aos Buraku. Não se esqueça dos habitantes de Okinawa e o povo Ainu. Sem mencionar os chineses e coreanos exilados (Zainichi). E os povos oriundos do Sudeste Asiático. Nós devemos destacar os fatos positivos sem deixar de mencionar os fatos negativos. Isto é ser imparcial.

    http://en.wikipedia.org/wiki/Ethnic_issues_in_Japan

    • Mystvan 12/06/2011 às 06:05 #

      Eu encontrei um outro link que ilustra nenhuma sociedade é isenta de histórias tristes (os alemães que o digam com as duas Grandes Guerras!):

      http://news.bbc.co.uk/2/hi/asia-pacific/4671687.stm

      Esta tentativa de esconder é bem patética, pois me lembra as tentativas fúteis e inúteis dos turcos em negar e/ou minimizar o Holocausto Armênio durante a 1ª Guerra Mundial. Assim como anti-semitas negam o Holocausto Judaico (os gays, os oposicionistas políticos também foram dizimados) durante a WWII. E os nipônicos negam as atrocidades cometidas na Ásia durante a WWII. Assim como os genocídios cometidos pelos regimes totalitários stalinista e maoísta. Ah, sem falar das famigeradas “santas” perseguições promovidas pela “Santa” Inquisição da Igreja Católica contra os “hereges”, cujo Papa é “infalível” e a Igreja “jamais” comete erros (como no caso do sábio Galileu Galilei). O ser humano era, é e sempre será o mesmo: brutal, hipócrita e cruel.

      O importante não é negar o passado, mas evitar cometer os mesmos erros (bárbaros e cruéis). Que isso sirva de lição para a futura geração, mas eu sou (muito) pessimista!

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