Tiros em frente de casa

17 fev

Na manhã de hoje tocou à porta um jovem japonês de terno escuro e  trejeitos educados. Desculpando-se por incomodar tão cedo (era 9h), entregou-me um cartão e se apresentou como jornalista da rede televisiva NHK. Como falava linguagem formal, mais complicada que a normal, custei a entender o que havia ocorrido. Na hora só pude entender que havia acontecido algo a um carro estacionado em frente ao meu prédio. A palavra-chave da sentença era uma que até então não havia nunca ouvido falar no Japão, 発砲事件 (はっぽうじけん), ou em português claro: tiroteio.

Havia dormido plenamente aquela noite e não lembro de ter sido acordado no horário citado pelo jornalista, por volta das 4h. Com isso não pude ajudar na reportagem e ele logo agradeceu e se despediu. Intrigado, resolvi perguntar a um colega de quarto se ele havia ouvido/visto algo estranho durante a madrugada daquela noite. “Ouvi tiros, muitos deles”, respondeu-me de sobressalto. Foi então que me dei conta que o incidente com o carro envolvera tiros.

Mais tarde aquela manhã, enquanto caminhava rumo à estação de trem, pude observar algumas pessoas da equipe de filmagens registrando imagens dos arredores, da calçada do prédio onde eu moro. Quando cheguei no escritório, tratei logo de procurar nas manchetes japonesas alguma notícia e logo encontrei, inclusive no Mainichi Shinbun. Realmente houve um incidente com disparos de uma arma de fogo essa madrugada. De acordo com a notícia, na manhã do dia 17, às 4h50 da manhã, um entregador de jornal encontrou no estacionamento de uma Construtora um veículo tipo Wagon, pertencente à mesma, perfurado com tiros de bala e reportou o incidente ao posto policial mais próximo. Os guardas afirmaram não ter percebido nenhum problema nessa noite. Agora a polícia investiga as causas do incidente junto à empresa, que pode ou não ter ligação com o crime. Ao todo foram 5 tiros, e 3 cápsulas foram encontras ao lado do assento do passageiro. Ao que parece apenas a Wagon estava estacionada no local na hora do ocorrido. Ninguém se feriu.

Segue a íntegra do jornal Sankei:

駐車場のワゴン車に弾痕 東京・亀戸

2009.2.17 12:21

17日午前4時50分ごろ、東京都江東区亀戸の建物解体会社の駐車場で、同社所有のワゴン車のフロントガラスに弾痕があるのを、新聞配達員が見つけ、近くの交番に届け出た。新聞配達員は午前4時10分ごろに「バーン」という音を数回聞いており、警視庁城東署は発砲事件として捜査。解体会社に関連するトラブルがなかったか調べている。

同署によると、弾痕はワゴン車のフロントガラスに1カ所、助手席のドアに3カ所見つかり、左後部の窓ガラスが割れていた。車の近くに拳銃の薬莢(やつきょう)が3個落ちていた。発見時、駐車場にはワゴン車しか止まっていなかったという。

O que eu acho disso?

A primeira coisa que me passou pela cabeça foi “voltei ao Brasil”. Sendo de São Paulo, acabei me acostumando a ouvir tiros quase toda noite. Já presenciei e até vivenciei cenas de violência urbana dignas de filmes como “Tropa de Elite”, mas nunca achei que pudesse ter aquela conhecida sensação de perigo num país como o Japão. Muito menos num lugar tão perto como em frente ao apartamento que moro, que diga-se de passagem, não é num bairro pobre e muito menos afatastado. Se quiser ver onde foi o incidente pelo Google Maps, clique aqui e vire a câmera para trás para ver meu apartamento. Também dormi tarde aquela noite, depois das 2h, talvez por isso nem que o tiroteio fosse dentro de casa eu acordaria. Aliás, teve até terremoto esse dia e eu nem senti.

Por que tanto alarde por isso então? Bem, eu disse que no Brasil incidentes desse tipo estão mais que carimbados, isso porque qualquer um que quiser pode ter uma metralhadora AR-15. No Japão, a venda de armas é proibida. Nem mesmo os guardas de rua usam, só tropas mais qualificadas e o exército tem o direito ao porte. Nas mãos de um cidadão comum é impensável! Tanto é que quando há notícias de homicídio no Japão, geralmente a arma utilizada é faca, quando muito um automóvel. Então, só pode ser uma coisa: máfia.

Agora é muita cara de pau dos policiais dizerem que não ouviram nada. Tiros! Alô? Até onde eu sei qualquer tiro que se dê pode ser ouvido num raio de quilômetros de distância, e o posto policial está a 500 metros de casa. Todo mundo sabe que os policiais japoneses se borram de medo só de ouvir a palavra “Yakuza”.

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6 Respostas to “Tiros em frente de casa”

  1. Bah 17/02/2009 às 21:59 #

    Quer dizer que morar perto da favela do vietna eh fichinha perto de onde vc mora agora huh? rs… imagino, coisa dos homi de preto rs…digo eh pior qdo vc voltar. Vc tah mto acostumado com o Nihon, acho que se vc voltar, vai acabar voltando e ficando de vez aqui no Jp… eu senti mta diferenca qdo fiquei somente os 8 primeiros meses aqui. Qdo estava em Sampa ficava paranoica rs.

    Kisu!

  2. Cristiane 18/02/2009 às 05:20 #

    Nossa!
    Pelo menos o episódio serviu para te lembrar como é viver aqui!
    Sabe, achei bem legal esse lance de arma de fogo ser TOTALMENTE proibida.
    Com certeza é uma utopia, mas se isso, um dia, fosse possível no Brasil, tenho certeza que tudo ia ser bem melhor!
    Beijoss!

  3. Angelo 18/02/2009 às 06:08 #

    Cara… que loucura, realmente é quase impossível imaginar que foi uma pessoa comum, já que é proibida a venda de armas, mas se for a máfia japonesa, com certeza algum corpo deve aparecer até o fim da semana.

  4. Ricardo 18/02/2009 às 06:14 #

    pode ser que um cara da tropa mais qualificada ou exército tenha ficado maluco e tentou matar alguém nesse estacionamento, é muito difícil ser isso, mas não impossível, porém esse é um crime isolado, dificilmente acontecerá de novo.

  5. Herika 18/02/2009 às 13:56 #

    Que medo! :S

  6. Karina Almeida 20/02/2009 às 01:42 #

    nossa, realmente, tiro aqui (no japão) é raríssimo! e, graças a deus, eu nunca ouvi um tiro sequer, nem aqui, nem lá em beagá. sap: belo horizonte.

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