Eu com meus Botões

6 maio

Já está na hora de escrever sobre minha nova rotina na capital japonesa. Apesar de já ter escrito 3 posts sobre o acontecimento sinto que está na hora de dar mais alguns detalhes. Não só sobre as coisas que faço, mas também um pouco sobre o que estou pensando e sentindo no momento em que escrevo. Um post de reflexão sobre tudo o que vem rolando na minha vida por essas bandas, no mesmo estilo do de ano novo. Esse é para quem gosta de ler.

Eu estou vivendo num ritmo alucinante. Acordo 2 horas antes de entrar no serviço para poder estudar apenas 30 minutos antes do expediente. Todos os dias da semana saio para a escola de japonês no meio do dia, sem horário de almoço, para depois retornar no final da parte e seguir até tarde da noite. Revezo os sábados para compensar o número de horas trabalhadas no mês. Também preparo minha própria refeição para economizar e procuro sempre deixar minhas tarefas domésticas em dia, para não atrapalhar a rotina durante a semana.

Pode não parecer, mas eu mudei bastante nesse ano de Japão. Mudei não só de localidade mas como, e principalmente, internamente e espiritualmente. Arrisco em dizer que realizei a maioria dos sonhos que tinha em relação à essa viagem, alguns ainda restam obviamente. De um viajante inexperiente, passo cada dia a crescer e a perceber nuances nas coisas que antes não desconfiava nem da existência. Principalmente em relação às pessoas.

De alguns meses para cá, minha vida deu uma guinada. Há um ano atrás eu estava completamente desnorteado numa terra estranha, não tinha amigos e nem onde me abrigar. Apesar de ter o apoio do meu irmão, muitas das coisas que eu precisava dependiam completamente da minha pessoa. Ouvi conselhos absurdos, propostas ridículas de emprego, gente tentando subtrair o que podia e o que não podia de mim. Não importando sexo, raça, pátria e nem mesmo religião.

Encontrei pessoas que me ajudaram imensamente e também muita gente que tentou tirar proveito da minha situação de dificuldade. Passei a conhecer melhor como são as pessoas por trás da máscara de simpatia e das doces palavras. Venci alguns obstáculos e descobri muitos outros ainda por serem vencidos. Achei amizades valiosas e percebi o desdém de outras. Trabalhei honestamente sempre, mas fui tentado muitas vezes também. Tomei decisões difíceis em pouco tempo. Defini rumos e objetivos que às vezes me deixam inseguro em relação ao futuro.

Faz quase dois meses que estou vivendo em Tóquio, que era meu sonho desde a infância. Não só por ser o palco das minhas histórias preferidas, mas por ser o coração e mente do país que aprendi a admirar desde sempre. E a cidade me acolheu como mais um de seus milhares de habitantes, oferecendo tudo o que estava ao alcançe. É uma cidade difícil de viver como toda metrópole, mas ainda sim mantém perspectivas que não se encontra facilmente em outro lugar. Quando decidi mudar para cá, pensei que seria minha última investida no Japão. Eu pretendia começar a crescer imediatamente ou mudar os planos.

Acho que tudo mudou a partir do ponto em que começei a estudar o idioma. Uma vez que conseguia me comunicar sem precisar de terceiros, fui ficando independente. Desse 1 ano de Japão, passei mais de 6 meses sem trabalhar. Metade do tempo me mantendo com nada apenas que o essencial. Por causa disso precisei mais que nunca de ajuda. Tive que vencer a vergonha de pedir ajuda às pessoas em minha volta e com isso me deparei com posições que para mim eram inacreditavelmente frias e distantes em relação à mim. Tudo isso por que acreditei que o estudo do idioma era a única saída de uma meia-vida no Japão. Apostei alto no único caminho que me pareceu sensato… e pelo visto minha intuição estava correta.

Se não fosse por essa decisão difícil de abrir mão da segurança de ter um emprego, por pior que ele seja, eu provavelmente estaria escrevendo linhas diferentes agora. Esse foi o diferencial que possibilitou minha contratação na empresa atual. Uma das maiores e mais prósperas relacionadas com o mercado brasileiro no Japão. Ao ser reconhecido como um profissional qualificado e uma pessoa dedicada a empresa me possibilitou o ingresso numa escola famosa de Tóquio. Comprometi-me a estudar até o final do ano afim de adquirir o certificado de proficiência no idioma, requisito para muitas áreas de estudo e trabalho no país.

A empresa tem cuidado de minhas necessidades, como seguro desemprego, saúde, transporte e moradia. Meu apartamento inclusive se encontra perto da empresa, podendo eu ir até ela de bicicleta ou até mesmo a pé. Poucas pessoas têm esse privilégio. O apartamento também é ótimo. Grande, possui uma cozinha enorme e ofurô com controle de temperatura computadorizado. Tem dois quartos que dividimos em 4 pessoas.

Quanto ao trabalho tem sido tudo muito interessante. Além de fazer a criação dos anúncios nas mais de 10 línguas dos mercados com que a empresa trabalha, também participo de projetos paralelos de divulgação de eventos e produtos que divulgam a cultura brasileira para o povo japonês. Estou envolvido com vídeo também.

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3 Respostas to “Eu com meus Botões”

  1. Loide 07/05/2008 às 03:37 #

    Oi, tudo bem?
    Visito seu blog esporadicamente há uns 2 anos creio. Na época estava procurando informações sobre uma fábrica, a Aisin, na qual você trabalhava, meu marido tinha entrevista marcada lá, depois desistimos. Mas eu já tinha colocado esse blog nos meus favoritos. Você escreve muito bem, o texto flui. Na verdade boa parte dos assuntos deste blog não me interessam, tipo animes, mangas, japonesas. Mas gosto muito das atitudes que você têm tomado. A maioria dos brasileiros aqui no Japão não gostam do trabalho em fábricas, não suportam, mas mesmo assim continuam vegetando nessa lida. Realmente é insano para muitos deixar de “ganhar” por seis meses só para estudar. Você fez oque é insano, e isso é muito legal. Foi positivo. Gosto quando as pessoas lutam pelo que quer, que não se acomodam e sabem onde quer chegar. Você parece ser assim. É o que me atrai nesse blog. Parabéns pelas suas atitudes. Obrigada por compartilhar suas histórias.

  2. alecoragem 13/05/2008 às 18:01 #

    Olá Orelha!!! Que bom que tudo está se encaminhando! Fico feliz com suas vitórias, mesmo sentindo falta de nossas conversas!!
    Torço por vc, sempre e pelo ultra-seven, ultra-man e similares.
    BJOS

  3. regina 19/07/2008 às 23:57 #

    Hoje conheci seu blog através do “Meu Japão” e ao ler seus textos, diga de passagem bem escritos, deparo-me com este texto e digo com sinceridade que me indentifiquei com o seu plano de vida. No mês de agosto de 2008 irei ao Japão pela primeira vez aos 38 anos, larguei o meu emprego estavel em banco e desde de janeiro estou estudando a lingua japonesa. Decidi nisso a 1 ano atrás, sempre quis saber o que é o japão, do que é feito, quem são as pessoas, qual a minha origem? enfim muitos comentam então vc irá para ganhar dinheiro e sofrer! Eu digo: eu estou indo para conhecer o Japão e aprender o japonês. “Mas vc não irá trabalhar? ” digo: sim vou mesmo porque tenho que me manter e viajar gera despesas rsss. No meu planejamento, quero ficar até o final de 2009 até que eu consiga prestar a prova de proficiencia, arranjei emprego proximo de Tokyo e ainda não sei se estudarei Japonês na cidade onde ficarei ou em Tokyo ( tem um que quero muito estudar lá) . Enfim … me identifiquei muito com seu texto, torço por você ..depois disso ganhou a minha admiração e sou sua fã!
    bjos

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