O Primeiro Ano de Japão

7 jan

Hoje completa exatamente um ano que estou aqui, em terras estrangeiras, tentando virar gente. O final de ano no Japão foi um misto de surpresa, gostos estranhos, ambientes alienígenas e uma sensação de que algo estava faltando. Nas duas semanas de “férias” da escola eu tive um gostinho de como é a rotina de final de ano no Japão. E digo que estou igual ao desenho que fiz aí em cima: morrendo de tédio!

Eu sempre fui um cara sociável, sempre querendo me meter em tudo que diz respeito à festa, bagunça e afins. É assim que eu gosto de me relacionar com as pessoas. Barzinhos, butecos, churrascada ou até mesmo um encontro light de camaradas no shopping center. O que vale é aquele bate-papo descontraído entre amigos onde se pode falar de tudo, sempre tomando cuidado para não falar besteira e virar motivo de chacota. Claro, afinal de contas tirar sarro do outro é sinal de afeto no ocidente.

Desde que pisei pra fora do avião, venho me deparado com inúmeros pequenos choques culturais nesse país. Primeiro com a realidade totalmente diferente do que a que eu tinha quando parti, mas isso acho que acontece sempre que você vai para um lugar desconhecido. A língua obviamente é a primeira barreira que se encontra, e diga-se de passagem que o japonês é uma baita de uma barreira, pois ele vem em 3 ondas: a fala, a escrita e o modo de tratar as pessoas (verbos e substantivos mudam de acordo com a pessoa com quem se fala). Problemas com bancos, aluguel, trabalho, leis e afins viraram parte do meu dia-a-dia. E quando achei que estava já acostumando com tudo, vem novamente ela, a grande vilã, a solidão.

Eu não quero ficar aqui chorando e me lamentando que meus amigos estão longe, minha família, meu cachorro e tudo mais. Isso é óbvio. São todas as coisas que fazem falta e você simplesmente não pode fazer nada a respeito. Aposto cada iene do meu porta moedas furado que todo mundo sente isso quando está longe de casa. É natural, é o que nos faz humanos. Mas esse final de ano foi um baque. Final de ano para mim sempre foi:

  • juntar a família (incluse aquela parentada que você nem lembra o nome direito)
  • trocar uns presentinhos (nem que seja aquele infeliz amigo-secreto que toda firma tem)
  • encher o bucho de comida gostosa (a melhor parte, festa de confraternização do escritório, jantar na casa da tia, comidinha caprichada da mamãe e afins)
  • reveillon com amigos em algum lugar especial (ou não, eu sempre prezo mais pela compania)

Nesses quesitos consegui completar quase todos, menos os que envolvem pessoas. Eu tenho amigos aqui, mas não é a mesma coisa. Falta aquela ligação, aquele algo em comum, sintonia… coração. Está certo que essas coisas se formam com o tempo, mas foi difícil passar sozinho esse período que considero “mágico”, de renovação, esperança, sonhos e tudo mais. Chego a pensar que é até algo meio deprimente. É uma sensação péssima, mas algo que eu tenho que lidar. Talvez mais um “choque cultural”.

Os brasileiros aqui se acostumaram bem a essa rotina japonesa de final de ano. A maioria das empresas não pára, as pessoas não veêm assim com tanta importância datas que achei ser importantes para todos. Veja bem, eu não sou religioso mas sempre achei que o natal é uma data de retiro, repouso e principalmente de reunião. Aqui é um dia normal, todo mundo trabalha, o correio abre, até o banco abre! Provavelmente eu estaria trabalhando também se não estivesse estudando. Na verdade eu trabalhei. Um cliente (por sinal, pasmem, Cristão) me ligou pedindo um serviço. Foi meio estranho. Para mim feriado é sagrado e falar de serviço num dia desses é um sacrilégio imperdoável.

Mas não quero ser pessimista, apesar de estar exorcizando esse desgoto de final de ano aqui. Seguindo as tendências e fazendo uma retrospectiva desse primeiro ano de Japão, posso dizer que as coisas estão se encaminhando mais ou menos do jeito que eu havia idealizado antes de tomar coragem para comprar a passagem. Minha meta era me adaptar, conhecer o país, o povo e tentar dominar o idioma. Não que eu tenha dominado a língua, mas terminei o ano conseguindo conversar com japoneses sem precisar apelar pro inglês. A adaptação veio gradualmente, primeiro com o clima, depois com a comida e assim por diante. Portanto acho que pela experiência de vida e pelas expectativas de um futuro mais confortante, acho que tudo isso está valendo. Mesmo o preço sendo dão doloroso, estando eu longe de tudo o que amo nessa vida.

Para quem leu, obrigado pela paciência e meus sinceros votos de ano novo. FELIZ 2008!

  • UPDATE: Encontrei no blog da Bah um relato bem parecido. É bom saber que não sou o único a reclamar do final de ano japonês…

3 Respostas to “O Primeiro Ano de Japão”

  1. Carla 12/01/2008 às 22:08 #

    Sabe, lendo esse seu relato, já começo a imaginar os meus dias aí. Em 2009 também vou abrir mão de tudo aqui no Brasil e tentar a vida na terra do sol nascente. Acredito que tudo tem um PORQUE. Nada é por acaso. Então: força!!!

  2. Dana 17/04/2008 às 22:02 #

    Oi! Eu preciso de uma ajudinha a respeito do japão. Se tu pudesse me dar uma mão, manda um mail para mim. xD Algumas informações daí seriam bem úteis para mim. Obrigada. xD

Trackbacks/Pingbacks

  1. Eu com meus Botões « A viagem de SHIGUES - 06/05/2008

    […] Já está na hora de escrever sobre minha nova rotina na capital japonesa. Apesar de já ter escrito 3 posts sobre o acontecimento sinto que está na hora de dar mais alguns detalhes. Não só sobre as coisas que faço, mas também um pouco sobre o que estou pensando e sentindo no momento em que escrevo. Um post de reflexão sobre tudo o que vem rolando na minha vida por essas bandas, no mesmo estilo do de ano novo. […]

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