Capsule Hotel em Tokyo

9 dez

Que Tóquio é a maior e mais cara cidade do mundo todo mundo sabe. Que é a mais densa em número de pessoas todo mundo também sabe (8 milhões de moradores mais 2,5 milhões de trabalhadores e estudantes que visitam a cidade diariamente). Agora o que pouca gente deve saber, só quem esteve por lá, é a existência dos hotéis-cápsula. Abaixo, meu relato e algumas fotos dessa experiência típica japonesa.

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A primeira vez que ouvi falar de um hotel-cápsula eu achei que era brincadeira. Um hotel onde não existem quartos, nem banheiros, nem armários convecionais. Ao invés disso, cápsulas enfileiradas lateral e verticalmente onde o hóspede sobe pequenas escadinhas e adentra dentro de um recinto suficientemente grande para se deitar e dormir. A simples descrição já causa estranheza, parece algo saído de um filme de ficção científica ou até mesmo de um mangá.  Mas é verdade e eu posso provar, já que passei a noite num deles.

Depois de soltar a gargalhada achando que fosse piada, parei um pouco para pensar e realmente vi que fazia sentido. Ora, Tóquio é super-povoada. Um verdadeiro formigueiro. Mesmo vindo de São Paulo posso dizer que nunca vi nada igual em termos de pessoas por metro quadrado. Some isso ao fato de tudo ser extremamente caro. Um quarto simples de hotel custa cerca de U$100 e dependendo da época pode ser difícil encontrar vagas. A capital japonesa abriga matrizes e escritórios importantes da maioria das empresas do país, muitos executivos e funcionários são obrigados a ir para Tóquio regularmente.

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Eu mesmo havia viajado de trem bala por 3h só para participar de uma reunião. Resolvi agendar uma cápsula já que estava curioso para ver como era esse hotel e pelo fato de ser extramente barato em se tratando de Tóquio (3 mil ienes por noite, equivalente a U$30). Assim pude aproveitar a noitada em Roppongi, o bairro do agito.

Procurando pelo hotel, previamente selecionado via internet, passei quase que desapercebido. Havia apenas uma porta afastada da calçada e abaixo uns 4 ou 5 degraus de escada. Na portaria, um senhor de idade. Devia ser entre 9h e 10h da noite. Ele pediu para tirar os sapatos e colocá-los em um dos armários que ficavam na parede ao lado da porta de entrada. Feito isso, pegou a chave onde tranquei meu par de All Stars e me entregou uma outra chave com um número. Era em formato de pulsera tipo aqueles fios antigos de telefone. Eu não entrei imediatamente, ainda saí para conhecer a cidade à noite. Achei que era cedo.

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Voltando mais tarde, lá pelas 3h, meio embrigado de bujitos e margeritas de Roppongi, adentrei-me com maior desenvoltura naquele estranho hall encarpetado. Deixei os sapatos, troquei as chaves e segui pelo corredor até o quarto dos armários. Na chave que eu havia pego havia um número, nos armários também. Então eu procurei o armário com número idêntico ao meu e o abri. Dentro haviam duas toalhas, uma grande e outra de rosto; um robe tipo kimono futurista, cabides e pequenas prateleiras. Troquei de roupa ali mesmo, o clima era tipo de vestiário de ginásio esportivo. Só de cuecas e vestido com um esquisito kimono azul peguei o elevador junto com algum japonês assalariado. “Konbanwa” me disse e eu respondi com um aceno de cabeça.

O prédio era pequeno. Os  portanto tudo ficava em andares diferentes. Os armários, a sala de TV, os banheiros, os quartos  cápsulas, tudo separado por andar. Dentro do elevador havia um papel impresso onde estava cada coisa. “Plim” soou o elevador. A porta se abriu no 6º andar, TV room. Muito engraçado, todos aqueles japoneses sentados em poltronas sem encosto, vestidos com o mesmo kimono azul que eu, assistindo a um imenso monitor às notícias do esporte. Alguns caindo de sono. Prossegui, meu destino era o último andar, o lavatório. Eu não sei por que, mas ficava no último andar. Chegando lá a típica fumaça de água quente enevoou me a visão. À frente havia um grande armário com prateleiras para se colocar a toalha e o kimono. Tirei tudo e entrei no onsen, não era minha primeira vez num banheiro público japonês, então foi bem traquilo. Tinha chuveiro e até ofurô!

Todos os japoneses ficavam me olhando com aquela cara de “Hein? O que um gaijin está fazendo aqui?“. Acho que os gaijins de Tóquio não devem ir muito a capsule-hotels.  Por ser o mais barato que se pode pagar por uma noite na cidade a maioria dos hóspedes são funcionários básicos que estão na cidade trabalhando. Lavei-me tranquilamente, usando a toalha como esponja (eles usam assim). Notei que todos usavam a chave como pulsera, menos eu. Havia deixado na prateleira em frente ao elevador. De repente me dei conta que a chave tinha aquele formato exatamente para se poder tomar banho com ela sem incômodos, já que era muito perigoso se alguém pegasse sua chave e esvaziasse seu armário do lobby. Preocupado, finalizei rapidamente o banho e saí à procura da minha chave. Sorte minha, estava lá. Então sequei-me e coloquei de volta o kimono-pijama.

Desci para o segundo andar. Quando a porta se abriu eu me senti numa espaço-nave. Uma grande porta de vidro com os dizeres “capsules 201-300” abriu-se automaticamente quando me aproximei. Olhando aquelas cápsulas logo lembrei de um necrotério e me dei conta por que esse hotel não fazia muito sucesso com estrangeiros. Para mim era tudo muito curioso e eu não ia deixar de dormir lá por causa disso. Então procurei novamente pelo meu número, escalei a cápsula e adentrei no meu “quarto”. Era parecido com uma geladeira deitada, achei até grande e confortável. Como se cobrisse com quatro paredes um futon. Dentro havia um controle onde se podia ouvir música, acertar o despertador e ligar a tv. Sim, havia até uma televisão no teto da cápsula. Também havia um espelho para dar aquela conferida no visual (eu fiquei me olhando e pensando “puts, onde eu estou?“).

Assisti um pouco a tv, não entendi bolhufas do que estavam falando então logo me entediei e caí no sono. Até que dormi tranquilamente o resto da noite. O problema foi na hora de acordar. Os despertadores dos vizinhos acordavam todos num raio de 5 cápsulas. Já que eram juntas umas nas outras podia-se ouvir tudo que se passava ao lado. Eu devo ter sido despertado a cada 20 minutos, a medida em que meus colegas de andar iam se levantando para o trabalho. Saí meio moído de lá, mas acho que é questão de costume. Como experiência achei muito válido, mas se fosse para fazer isso regularmente não sei se acharia tão divertido. Com o sono leve como o meu, nada melhor que um quarto fechado e uma boa cama!

3 Respostas to “Capsule Hotel em Tokyo”

  1. TIAGO 10/12/2007 às 12:49 #

    Faltou falar do detalhe desse seu cavanhaque cafa-demoníaco. hehe

    Como experiência, deve valer mesmo. Quem sabe pra um mochileiro também.

  2. Kawasetsu 12/12/2007 às 13:09 #

    Eh, Shigues, vc na pressa de perder a chave vc esqueceu de lavar o rosto direito… na foto ainda tah com a cara suja! Hahaha!😄

  3. Mityan 24/03/2010 às 01:04 #

    Adoreeeeeeeeei o relato, eu moro ake no JP a 5 anos e ainda não tive a oportunidade de conhecer esse hotel mas um dia com crtza vou! xD
    bjuuuh

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