YAMASA – A torre de Babel

4 dez

Yamasa

Desculpem-me o contra-senso, mas é impossível não associar o Instituto Yamasa com a famosa história bíblica da torre onde todos os idiomas foram criados. O que na verdade não teve nada a ver com torre alguma, Babel era uma cidade-estado extremamente desenvolvida e rica, capital do império babilônico, e por isso recebia grande número de imigrantes vindos de várias partes do mundo, o que causava estranhesa nas pessoas menos informadas da época. Exatamente como grandes cidades, iguais a Tóquio hoje em dia.

Nesse modesto mas vistoso prédio funciona uma das melhores e mais famosas escolas de japonês para estrangeiros que existe hoje no Japão. Seguramente a mais qualificada na região de Aichi-ken, onde eu moro e uma das mais requisitadas pelo seu notório método de ensino. Os cursos para se aprender japonês se dividem praticamente em 2 tipos: o SILAC, que é voltado para quem quer desenvolver a fala rapidamente e não tem muito tempo ou interesse em aprofundar-se na língua escrita, e o AIJP e similares que vão mais a fundo, abrangendo a fala, escrita e leitura corretas do japonês.

front.jpg

E é nessa escola que eu tenho empregado todo meu tempo livre, já que o curso que eu faço tem a duração média de 6 horas por dia, de segunda a sexta, e uma quantidade absurda de tarefas para se divertir em casa. Ainda não contente com tudo isso, eu ainda me inscrevi no programa mais puxado que a escola oferece, tendo um extra de 4 horas semanais de aula. Por isso pessoal, não estranhem meu sumiço repentino.

Essa semana se completaram 2 meses de curso, explicando assim minha (sentida) ausência. Muita coisa aconteceu nesse meio tempo: reviravoltas, descobertas, confusões e afins. Porém, como eu não pretendo escrever nenhum livro com esse post, descrevendo essas 8 semanas de aventuras, vou me ater apenas às informações essenciais sobre a escola e minhas primeiras impressões.

À primeira vista pode parecer um pouco aterrorizante entrar num recinto onde todas as pessoas são estranhas (no bom sentido… e no mal também). Como eu comecei o post citando Babel, acho que a melhor descrição que se pode dar sobre um centro de idiomas requisitado é a torre. Idiomas desconhecidos, bizarros, excêntricos e engraçados. Pode-se dizer que há pelo menos um representante de cada parte do mundo. Isso sem contar os diferentes tipos de raças (isso existe?), apesar de ser brasileiro e estar acostumado a ver vários tipos de pessoas, eu sempre me assusto quando vejo um estrangeiro autêntico.

firstday.jpg

Deixando o medo de lado, no primeiro dia você participa de um grande seminário, em inglês ou chines apenas, onde se explica como é a vida no Japão. Uma coisa que eu senti grande falta quando cheguei foi exatamente uma palestra dessas. Como funciona uma típica cidade japonesa, como se trata as pessoas na rua, nas lojas; como se joga o lixo corretamente; como funcionam os bancos, os mais recomendados; por que não se pode isso ou aquilo e muito mais. É claro que as normas da escola e os procedimentos de avaliação e comportamento também são explicados nessas 4 horas de falação.

Depois todo o corpo docente da escola é apresentado, todos os professores falam seus nomes e seus “passatempos”. Depois é a vez dos alunos. Incrível como todos os calouros já tinham nível suficiente para pelo menos se apresentar em japonês, ainda por cima para uma platéia de desconhecidos, o que é mais incrível ainda. Mesmo os que estavam iniciando os estudos do japonês.

A escola separa seus alunos em módulos que se iniciam no A e vão descendo, indicando o nível de desenvolvimento da turma. Apesar de ter estudado 2 anos no Brasil e feito kumon no Japão até então, meu nível, após um exame escrito e entrevista, ficou na categoria N. O que não é obrigatoriamente ruim, se você não curte fortes emoções (dores de cabeça). Já que o aprendizado do japonês requer cada neurônio vivo no seu cérebro. Abaixo, N Class, minha sala, onde tenho como colegas taiwaneses, de Singapura, Suécia, Corea, Bélgica, e é claro brasileiros. O professor é o Hikosaka Sensei, nosso mentor e um japonês muito atencioso e divertido.

nclass.jpg

E por falar em brasileiros, na escola há poucos. Pelo menos em relação a outras etnias, como os coreanos e taiwaneses. Devo conhecer uns 10 apenas, sendo que pelo menos metade da escola, uns 250 alunos, devem ser de estudantes asiáticos. Há bastante suecos e americanos também. A maioria deles vem da classe média de seus respectivos países. Isso é algo que eu gostaria de comentar em outro post, a diferença entre um cidadão brasileiro e um europeu ou proveniente de maiores economias. Ser classe média num país desenvolvido é bem diferente da realidade que enfrentei no Brasil antes de vir para o Japão. Apesar de não ser nenhuma novidade, a sensação é bem diferente quando se encara o fato ao vivo e a cores.

nob_isa.jpg

Outra impressão interessante que a escola passa é de que o mundo é pequeno. Vários povos ali tentando aprender uma língua. Itália, Inglaterra, Alemanha, todos juntos na mesma mesa tentando descobrir que diabos é o prato do dia. Eu digo por mim mesmo, pois ali mesmo na Yamasa reencontrei meu colega de Mackenzie perdido há 3 anos, desde nossa formatura. O André (Nob) Tamane. Quem diria que do outro lado do mundo agente iria acabar trombando um ex-colega de faculdade hein. Na foto ele com a esposa, que eu juro que não me lembro mas ela diz que já tinhamos sido apresentados na época em que eles ainda namoravam. Ela é nascida em Taiwan, criada no Brasil e agora casada com um japonês (o André tem cidadania). Como disse um amigo alemão que namora uma brasileira: “Bem-vindo ao século XXI meu amigo!”.

A vida é uma escola, não é mesmo? A todo instante estamos aprendendo coisas novas. A cada erro besta nos testes diários da escola, a cada palavra errada que acaba ofendendo um ou outro, a cada estação errada em que descemos por não saber ler o kanji aprendemos. Eu ainda na escola aprendo ainda mais rápido, pois a escola é o lugar do saber. Por exemplo, no primeiro dia que entrei na escola estava quente. Eu logo fui me aliviar no toilet e hei que me deparo com um manual escrito em 3 línguas de como lavar as mãos corretamente. Eu já mencionei que os japas são loucos?

washing_hands1.jpg

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8 Respostas to “YAMASA – A torre de Babel”

  1. TIAGO 05/12/2007 às 13:45 #

    Pena que não apareceu aqui as imagens nob_isa.jpg e washing_hands.jpg.

    Pau no Wordrpress?

  2. TIAGO 05/12/2007 às 15:10 #

    Cara, eu amo o Japão. Claro, isso vindo de um gaijin que nunca pisou aí. Hehe. Talvez eu tenha uma visão idealizada da terra do sol nascente e só vou descobrir isso quando for fotografar por aí.

    O no fim das contas, o mundo não é assim tão grande né?

    []’s

  3. Andréa 20/03/2008 às 04:33 #

    Comecei com “c” cedilha? Ms valeu a dica, quero muito estudar aih tb.

  4. ShigueS 20/03/2008 às 08:49 #

    Obrigado pela correção Andréa, estou sempre cometendo atrocidades na gramática, aliás o intuito inicial do blog é mesmo a prática da mesma. Quanto se aprende outras línguas, confundir palavras é muito fácil. Vou tentar prestar mais atenção da próxima vez!

  5. deang 09/05/2008 às 16:33 #

    faertde

  6. Priscila Andrade 27/10/2009 às 05:42 #

    Olá Gabriel,

    Nos últimos meses nós, do portal linguístico bab.la (http://pt.bab.la/), temos trabalhado em dois novos produtos lançados recentemente. Queremos compartilhá-los com você, que escreve sobre o Japão.

    Nosso Guia de Sobrevivência está disponível para download gratuito (http://pt.bab.la/viagens/guia-de-sobrevivencia/ ) e contém as palavras e frases mais importantes e necessárias quando se viaja ao exterior. Ele está disponível em 14 idiomas diferentes. Com todas as combinações possíveis de línguas, no total são mais de 500 arquivos em PDF.

    O Guia de Frases (http://pt.bab.la/frases/) foi desenvolvido com base na sugestão de usuários, que pediram um recurso útil para a escrita em língua estrangeira. Ele contém centenas de frases úteis para inscrições, uso acadêmico, empresarial e pessoal. O Guia de Frases é uma ótima fonte de inspiração quando se precisa de uma frase introdutória para dissertação, carta motivacional ou para formular um e-mail comercial.

    Gostaríamos de sua ajuda: conte aos seus amigos, colegas, coloque uma hiperligação em seu website: deixe que outras pessoas saibam sobre os nossos novos produtos para que possam usá-los gratuitamente!

    Por fim, por favor envie-me os seus comentários ou perguntas sobre qualquer um dos produtos. Será um prazer receber a sua opinião.

    Atenciosamente,
    Priscila Andrade

  7. ana 24/12/2012 às 05:58 #

    Como consegue dinheiro para tudo isso? Nao trabalha apenas naquele escritori?

Trackbacks/Pingbacks

  1. Rabiscos na ExpoBusiness 2008 « A viagem de SHIGUES - 01/06/2008

    […] dar umas voltas e aproveitei para rever vários ex-colegas de trabalho. Encontrei uma colega da YAMASA, a Uehara-san, e ainda um dos participantes do desfile samurai. Depois de 1 ano morando em Aichi […]

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