O dia em que perdi minha carteira

29 mar

foi assim

Acreditem, é verdade. Eu NUNCA havia perdido a carteira antes. Já me roubaram, já esqueci no carro, deixei na casa de alguém, mas sempre consegui recuperar sem dores de cabeça pouco tempo depois. Agora dessa vez eu havia realmente perdido minha carteira, simplesmente lotada com todos meus documentos e o pouquinho de dinheiro que eu tinha e, para piorar, num país estrangeiro cuja língua eu não falava.

No dia eu havia ido à Kamimaezu, bairro comercial de Nagoya. Na verdade uma verdadeira “25 de março” à la japonesa. Várias ruazinhas cheias de lojinhas, lotadas de tranqueiras para todos os gostos e bolsos. Eu fui numa atitude desesperada e frustrada de comprar uma tablet nova, para poder desenhar em casa. Eis que, para o meu carão, meu cartão de crédito international não funcionou! Lá fui eu cabisbaixo para a estação de trem.

Para minha grande sorte, resolvi ligar antes para o Guga. Para ver se ia ter janta em casa ou algo assim, e adivinhe: ele estava em Kamimaezu também! Ora, vamos nos encontrar então.

Guga em Kamimaezu

Bom, o Gu não tinha dinheiro com ele. Pelo menos não suficiente para comprar a tablet e voltar pra casa. Os bancos aqui fecham cedo, só sacam até 20h e naquele domingo era feriado, então já estavam fechados desde as 17h. Moral da história: valeu pelo passeio.

Acontece que na volta para casa eu devo ter deixado a carteira cair em algum lugar. Só fui me dar conta 2 dias depois, pois no dia seguinte eu ainda voltei com o Guga lá para comprar a bendita tablet (e para tirar a idéia da minha cabeça-dura?).

Quando percebi que realmente havia perdido simplesmente toda minha documentação que tinha tirado depois de um monte de burocracia e viagens, e taxas; foi como se o mundo tivesse desabado, tivessem tirado o chão debaixo de mim. Na carteira tinha minha identidade estrangeira do Japão, minha habilitação do Brasil, todos meus cartões do banco (incluindo o maravilhoso cartão international), meu inkan (carimbo pessoal, usado no lugar da assinatura, é insubstituível), 8 mil ienes, e outras coisas menos importantes mas que fazem falta.

Só quem já passou por isso sabe a dor de cabeça que é. Fiquei deprimido uma semana, mentalmente me penitenciando por ter sido tão desleixado a ponto de perder algo tão importante. O pior é que havia uma chance mínima de um japonês achar e devolver para a polícia. É prática comum aqui, e era minha esperança. Porém, todo mundo dizia “Agora, se for estrangeiro que achar, pode esquecer. Vai tirar o dinheiro e jogar fora, isso se não usar os seus documentos para alguma falcatrua“. Poxa, eu já estava me sentindo um lixo. Agora então estava pior, pois nem na minha “raça” eu podia confiar. Peão de fábrica, analfabeto, cara de mexicano e uma besta humana.

Passaram-se uma, duas, na terceira semana chegou um hagaki em casa. Uma espécie de cartão postal que serve como opção mais barata que a carta comum. Fiquei todo alegre o dia inteiro pensando que era da polícia dizendo que haviam achado minha carteira. Toda essa alegria graças à bênção da ignorância (eu sou analfabeto, lembram? como posso ler correspondência em japonês?), pois no final do dia entreguei à uma pessoa instruída que me disse se tratar do cartão do banco, nada a ver com a carteira. Pronto, mais uma semana deprimido.

Já havia perdido totalmente as esperanças quando, na semana seguinte, outro hagaki chegou em casa. Era da polícia. Eu já nem ligava mais, pois não queria ficar esperançoso à toa novamente. Nem levei para a pessoa traduzir para mim, só no dia seguinte, pois havia esquecido. E não era que haviam achado mesmo minha carteira? Estava em Kamimaezu mesmo, na delegacia.

Fui lá no dia seguinte, me devolveram tudo. Tudinho. Até as moedinhas separadas por valor numa bandeija para conferir. SUGOI! A policial explicou que a carteira estava caída dentro do trem que sai de Nagoya, um trem muito movimentado e cheio de pessoas, e que um funcionário da linha havia entregado a um posto policial. Provavelmente alguém achou e notificou o funcionário, que notificou a polícia, que me notificou.

Eu quase dei cambalhota na delagacia, mas fiquei um pouco apreensivo de parecer falta de respeito ou algo assim. Mas eu fiquei muito feliz e muito contente em ver como os japoneses acreditam na bondade humana e procuram provar isso com pequenos mas significantes atos como esse. A cada dia que passa eu fico mais maravilhado com essa cultura tão transparente.

Ah! E eu comprei minha tablet, só está faltando tempo para desenhar.

6 Respostas to “O dia em que perdi minha carteira”

  1. Daniel 31/03/2007 às 22:47 #

    E aí Gabi??
    Até que enfim, heim primo??
    Já estava ficando preocupado!!!
    hauahuahuaa
    Pelo visto já está passando altas aventuras, heim??!!
    hehehehe
    Tudo de bom pra vc!!!
    Um abraço.
    Daniel

  2. Daniel (F42T42) 06/04/2007 às 02:39 #

    Recuperou ainda! Sugoi!

  3. EDSON 04/10/2008 às 13:32 #

    QUERO TRABALHAR NA POLÍCIA CIVIL

  4. Ivan 31/05/2010 às 07:36 #

    Aqui no Brasil o poupa tempo poupa parte do tempo: vc faz erregê, cateira de motô e docú do carro rapidinho.

  5. bruno 23/03/2014 às 08:26 #

    Aqui no Brasiú não, roubam tua carteira e ainda pegam o dinheiro e jogam a carteira na rua pro bueiro levar embora. Roubaram minha carteira na sala de aula. Estudo na PUC. Nota zero pro povo brasileiro, especialmente da classe média alta, que acha que pode tudo só por ter uma conta corrente cheia de papeis coloridos.

  6. Alessandra De Almeida Arias 07/07/2016 às 04:43 #

    Poxa que Bacana meo! Eu to passando por isso… perdi meu porta documentos com TODOS MEUS DOCUMENTOS juntos na 25 de março sabado agora, e to ARRASADA, tenho tanta esperança de alguem me procurar e devolver.

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