Vira e mexe sai uma reportagem interessante falando de como é realmente viver e trabalhar no Japão. Algumas vezes o texto deixa em aberto se a experiência é válida ou não. Na internet é possível encontrar muitos blogs de dekasseguis que relatam seu dia-a-dia, descrevem sua rotina e expõem seus pensamentos e conclusões sobre esse tema com sinceridade e precisão. Contudo, é difícil encontrar textos endosados pela impressa brasileira e publicados em larga escala para o público leigo.
A dica de leitura vai para Ralando no Japão, um diário escrito pelo repórter Maurício Horta narrando sua experiência no arubaito japonês. Se você está pensando em vir ao Japão trabalhar temporariamente, geralmente no período de férias, é bom dar uma lida em textos como esse para não levar muitos sustos. Não estou falando do Japão ou até mesmo do serviço em fábrica, mas sim da realidade das pessoas por aqui.
A Angústia
O dia na fábrica é eterno. A hora e meia do primeiro turno matutino flui como um aquecimento. Passa o primeiro intervalo e, diante da oferta do almoço, o trabalho não parece tão difícil. Mas nada nos espera senão as frituras do bandejão – aqui não tem sushi nem sashimi. Prato A, prato B, curry ou udon. No turno da tarde, o tédio torna-se implacável. Nessas horas, Iraci canta para si mesma músicas do padre Marcelo Rossi enquanto aperta parafusos de contadores de moedas; Danila, que está na linha há 6 anos, atrai os meninos com gracinhas, enquanto parafusa tocadores de dvd; Robô provoca os camaradas do depósito e Arnaldo põe-se a falar sem parar. Na linha de montagem, Henry Ford divorciou a atividade manual da intelectual. O operário não precisa pensar, só repetir operações predeterminadas. Para o arubaito, passar 6 dias por semana sem usar a cabeça é uma angústia insustentável. Repete-se a palavra motainai – “desperdício”. Que livro poderia ler enquanto encaixo o 1 800º processador? Sobre o quê poderia conversar enquanto sou obrigado a ouvir mais um causo de Votuporanga?






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