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Os que vão, os que ficam

15 mar

Shibuya na tarde de hoje: irreconhecível

Depois do terrível desastre do dia 11, o Japão mostra perseverança e seriedade, fatores essenciais na cultura japonesa. Mesmo com as linhas de trem e metrô da cidade de Tóquio comprometidas a apenas 20% de funcionamento, muitas pessoas encontraram uma maneira de ir trabalhar. Por maior que seja o medo de outro desastre, muitos ainda insistem em levar sua rotina. Uma maneira mostrar força e comprometimento com o trabalho.

Por conta do racionamento, as empresas estão funcionando somente com o mínimo necessário de energia. Prédios inteiros apagados por dentro durante o dia, e a noite letreiros e telões completamente desligados transformam a cara da capital. As ruas estão mais silenciosas, lojas e restaurantes vazios. Tamanho foi o esforço do povo japonês em economizar energia, que o rodízio foi suspenso em algumas áreas. Mesmo assim os residentes reclamaram e pediram para o governo continuar com o plano inicial.

A Torre de Tóquio, desligada.

Durante a crise, as maiores operadoras de telefonia do país disponibilizaram seus serviços gratuitamente. Como estava (e continua) difícil usar a rede celular, o sistema wi-fi, um serviço adicional, foi liberado. Telefones públicos também passaram a ser gratuitos. As máquinas de venda automatizadas, comuns nas ruas de todo o país, também foram abertas nas áreas afetadas. Comerciantes doam seus estoques de comida aos órgãos competentes. Ao invés de lucrar com a situação, muitas entidades dão o exemplo e agem com grande compaixão.

Na empresa onde trabalho e em outras que também são constituídas por estrangeiros, a diretoria liberou os funcionários para trabalhar onde se sentirem mais seguros. Ameaças de novos tremores, chuva radioativa, falta de água, luz e comida fez deixou muitos colegas preocupados. Algumas pessoas deixaram a cidade com sua família e outras já estão indo para o exterior. Nessas horas cabe a cada um fazer o que é melhor para sua segurança e de sua família.

Porém, rumores maldosos e exagerados estão gerando pânico, principalmente entre os estrangeiros, não familiarizados com situações delicadas como a de agora. Do que arriscar a vida na segurança incerta, muitos evacuaram a cidade. Japoneses inclusive.

“The only thing we have to fear is fear itself.” - Franklin D. Roosevelt

Os tremores ainda podem continuar por semanas. Falta água em alguns bairros, há racionamento de energia, desabastecimento de comida, transporte público comprometido, aeroporto congestionado, o governo parece estar escondendo a verdade… não se pode culpar quem quer ir o mais longe possível dessa confusão. Mas há também aqueles que permanecem em Tóquio. Seja por orgulho, por preguiça, por otimismo, não importa.

Eu estou entre eles. Que seja pelo bem!

imagens: ShibuyaTokyo Tower

Hiroo Onoda, o soldado que não se rendeu

19 nov

Acabo de postar um texto sobre Hiroo Onoda, o lendário soldado japonês que continuou lutando por 30 anos após o término da Guerra. Interessantíssimo!

For anos a fio, Onoda conseguiu escapar do exército americano, das tropas filipinas, da polícia, de fazendeiros locais e ainda não se deixou seduzir pelas mensagens panfletadas em japonês informando o fim da guerra. Em 1960, Onoda foi considerado oficialmente morto pelo Governo Japonês. Mas isso não impediu que excursões japonesas saíssem a sua procura, chamando-o com o auxílio de amplificadores.

O post você confere na íntegra visitando o famoso “Brasil com Z”.

Boa viagem!

Nikko

18 nov

Tōshō-gū

Nikko é um daqueles lugares mágicos que pouca gente conhece. Mais ou menos como Ouro Preto no Brasil: apenas brasileiros ou turistas estrangeiros munidos de um bom guia de viagens sabem que existe. Como Ouro Preto, Nikko é uma cidade histórica. O grande destaque é o complexo de templos anexados ao Tōshō-gū (東照宮), o adornado Mausoléu do Shogum Tokugawa Ieyasu. Além do valor cultural, a região montanhosa também é conhecida pelas águas e paisagens montanhosas incríveis, perfeitas para quem curte caminhadas.

Nantai-san
A montanha “corpo masculino”.

História

Como a maioria dos pontos turísticos japoneses, Nikko começa com a visita de um monge, Shōdō Shōnin, e a construção de um templo, Rinnō-ji em 766. Logo após, uma vila se forma em torno desse e de diversos outros templos que são erguidos na região. Um deles é o Futarasan Jinja, cuja finalidade é idolatrar uma montanha (!) que tem o nome de “corpo masculino”(!!).

Estes dois templos formam, juntamente com o Tōshō-gū, um dos Patrimônios Históricos da Humanidade.

Futarasan Jinja
Futarasan Jinja

Atrações

Nikko é famosa pelos templos e museus seculares, mas há outras coisas interessantes para se ver e fazer na região. É possível fazer trilhas nas matas, andar de teleférico, barco, canoa e muitos outros programas naturebas.

Geologicamente, apresenta muitas falhas geológicas, resultado da erupção de um vulcão local. O terreno acidentado forma cenários cinematográficos que também atraem muitos turistas. Principalmente casais.

Cachoeira Kegon

O destaque é a cachoeira Kegon, situada no topo de um abismo. É possível chegar ao fundo usando um elevador.

Também há muitos onsen, as casas de banho japonesas. A água usada nesses estabelecimentos é naturalmente aquecida e traz muitos benefícios para a saúde.

Falhas de toda ordem

Não são só geográficas as falhas de Nikko. A cidade tem alguns problemas que não encontrei em outros lugares que estive no Japão. Não há por exemplo, muitas lojas de conveniência (os kombinis) e bancos. Como as coisas lá tem o preço salgado, tome cuidado para não ficar sem grana.

Se você pretende passar a noite por lá, atente pela falta de restaurantes que servem janta. Como a maioria dos turistas vem de excursões de um dia, o comércio da cidade fecha assim que anoitece. No caso do Outono, a partir das 4h da tarde.

Outro inconveniente é que tudo tem tarifa. Tudo tem entrada e não há bilhetes que integram todas as atrações. Prepare-se para encher o bolso com moedas, apenas para fazê-las evaporar num instante.

Narabi Jizo
Se você gosta de ver fotos, clique na imagem para visitar minha galeria!

Vale a pena!

Nikko é linda, cheia de riquezas naturais e culturais. Vale a pena visitar seja pelo motivo que for. Não é muito caro (pelos padrões japoneses). É perto de Tóquio e o acesso é simples.

Miyajima – A ilha sagrada

24 set

Situada apenas a 20 minutos de Hiroshima, Miyajima é praticamente uma visita obrigatória. De todos lugares que visitei no Japão, a ilha sagrada se destaca em praticamente todos os aspectos: rica em cultura, beleza natural, atmosfera envolvente e valores acessíveis.

É impossível ir a algum lugar no Japão sem se conhecer um pouco de sua história. A cultura é tão rica e viva que a impressão que tenho é cada pedaço de terra, cada montanha, cada rio tem sua própria lenda e que tudo contribui para se formar o que conhecemos como Japão.

História

Miyajima vem sido considerada um lugar sagrado por longo período da história japonesa. Diz a lenda que uma deidade marinha é reverenciada na ilha desde do século VI. No ano 806 AC, o monge Kōbō Daishi escalou o Monte Misen e estabeleceu a montanha como um lugar ascético para o Shingon, um ramo mais exotérico do budismo. A ilha abriga templos budistas e também xintoístas em perfeita harmonia. Seu mais famoso templo, o Itsukushima-jinja, teve seu esplendor erigido pelo senhor da guerra Taira-no-Kiyomori em 1168.

No passado, mulheres não eram permitidas na ilha e anciões eram embarcados para lá para morrerem. Então a pureza do lugar não poderia ser maculada pela presença destas. O nome real da ilha é Itsukushima (厳島), e Miyajima é apenas um apelido popular que significa “Ilha Templo”.

Atrações

Logo que se aproxima da ilha, pela barca, vê-se o lindo O-Tori, ou Portal Flutuante, indicando que toda a ilha é um imenso é um local sagrado Xinto. O portal já passou por 17 “encarnações” desde que Taira-no-Kiyomori ergueu o original, 842 anos atrás. É possível ver também a vila principal, nas margens da ilha. Interessante notar que a disposição e o aspecto das casas continua muito próximo de como sempre foi. Resultado de um notável esforço do governo local em manter a identidade do lugar.

Saindo da estação portuária, logo em frente encontra-se o par de lanternas de mármore anunciando “Miyajima”. Bem ali encontra-se uma maquete da ilha, com todas as principais atrações devidamente indicadas. Há também mapas detalhados para se pegar de graça. Legal é ver veados soltos pelas ruas, assim como em Nara. A ilha também abriga a maior espátula do mundo!

Dependendo da hora que se vai, é possível ver o O-Tori na sua mais bela forma com a maré alta. A maioria dos lugares tem uma tabela indicando que horas é a mais indicada para se apreciar essa vista, que é considerada uma das mais belas do país. O que não se fala porém, é que é necessário adquiri um bilhete de ¥300 se para ingressar no Itsukushima-Jinja.

Veja mais fotos! Cique no Portal Flutuante.

Eu poderia escrever uma lista enorme com coisas interessantes em Miyajima. São tantas coisas legais para ver e fazer, que vou me ater somente ao que fiz e recomendo. Se quiser saber mais, existem inúmeros guias de viagem com informações mega-detalhadas para você mergulhar de cabeça!

Visite os templos mais distantes: os templos mais badalados, os que ficam na orla, são abarrotados de turistas. É praticamente impossível fazer qualquer coisa sem ter que esperar numa fila. Por isso aconselho passar rapidinho por esses templos e ir direto para o Monte Misen, o mais alto da ilha e onde tudo começou. O passeio de bondinho é maravilhoso e pode-se ter uma bela vista da mata. Só tome cuidado com o lanche, lá em cima os macaquinhos são bem espertos e podem lhe afanar sem cerimônia.

Se você é do tipo aventureiro, pegue umas das trilhas e se maravilhe com o cenário natural da ilha. Pelo caminho é possível visitar templos antigos e curiosos, ao mesmo tempo que se respira ar puro e ouve-se os sons da floresta. Apesar da diversão garantida, não há muitos turistas nessas trilhas, o que para mim é mais um atrativo.

O Templo Reika-Do da Chama Eterna

O Reika-do, por exemplo, é um lugar formidável. Dentro do Pagode queima uma chama que dizem ser eterna. Foi acessa pelo mesmo Kōbō Daishi, o monge que “fundou” a ilha. Além de estar acessa a mais de 8 séculos, a mesma chama foi usada para acender a Chama da Paz em Hiroshima. Enquanto fotografava o local, vi um jovem monge surgir de um casebre próximo e colocar lenha na fogueira. Interessante, não?

A misteriosa Kanman no Iwa, a "Pedra da Maré".

Ainda pela mesma trilha, me deparei com um dos mistérios da ilha (parece que existe uma série deles). A “Pedra da Maré” possui em sua cavidade uma poça d’água que parece encher e esvaziar de acordo com a maré da ilha, sem haver nenhum rio ou algo parecido por perto! Dei a volta por ela e tudo que encontrei foram umas estátuas e velas acessas. Deu até um arrepio na hora.

O Japão é mesmo um lugar mágico, cheio de lendas e estórias curiosas. Dentre todos esses lugares, Miyajima é a jóia da Coroa. Ao viajar pelo Japão, já sabem onde ir. Recomendadíssimo!

Boa Viagem!

fontes: wikipédia, wikitravel, The Rough Guide to Japan

Hiroshima 65 anos

18 ago

Dia 6 de agosto completou-se 65 anos desde a detonação da primeira e segunda bombas nucleares, em Hiroshima (6 de agosto de 1945) e Nagazaki (9 de agosto de 1945), respectivamente.

Mês passado estive eu em Hiroshima e aprendi muitas coisas importantes sobre a vida, e a morte. Desde então, venho pensando em registrar essa experiência em forma de texto. O conteúdo desse post é interessante, mas sei também que é algo difícil de digerir por se tratar de abnomináveis horrores da guerra.

Meu relato está na continuação do post. Boa leitura!

Continue lendo 

Visita a Hiroshima

8 jul

O "Domo Atômico", antigo Prédio de Promoção Industrial, construído em 1914. Clique na imagem para ver a galeria de fotos.

Semana passada estive passeando pelo Oeste do Japão e tive a oportunidade de conhecer Hiroshima. Apesar da história infame de ter sido a primeira cidade a ser destruída por uma bomba atômica, fiquei impressionado com a quantidade de lugares bonitos e alegres que há por lá. Curioso, tirei várias fotos que podem ser conferidas clicando na imagem acima ou nesse link.

Durante a Segunda guerra mundial, Hiroshima foi um importante local de agrupamento e embarque de tropas japonesas. Promissora, a cidade abrigava não só fábricas e indústria bélicas, mas muitas escolas e faculdades. Até próximo ao final da guerra, a cidade miraculosamente ainda não havia sido atacada pelos bombardeios incendiários do exército americano. Mesmo assim, centenas de estudantes primários, juntamente com seus professores, formavam perigosos grupos de demolição. Essas demolições criavam largos vãos entre as casas e serviam como uma barreira contra incêndios. Muitos morreram soterrados devido a péssimas condições de trabalho.

Porém, no dia 6 de agosto de 1945, nenhum esforço que os moradores pudessem fazer seria o bastante para conter o impacto da bomba atômica. Lançada do bombardeiro B29, Enola Gay, e batizada como “Little Boy”, a bomba explodiu a 580m acima da cidade, liberando uma energia destrutiva equivalente a 15.000 toneladas de dinamite. Aproximadamente 70 mil prédios desapareceram e mais de 80 pessoas morreram instantaneamente. Os sobreviventes sofreram queimaduras horríveis e muitos morreram nos dias seguintes. Especula-se que os americanos tenham poupado a cidade para medir mais precisamente o impacto da bomba atômica.

Apesar de sua horrível história, a cidade sobreviveu e floresceu. Quem visita Hiroshima hoje, mal percebe que ali houve tamanha calamidade. A cidade vibra com seus neons e sua população agitada, andando de um lado ao outro ocupada com trabalho.

Há muita coisa para contar, por isso vou deixar para posts futuros. Nas minhas primeiras horas, em frente ao monumento da foto acima, encontrei um simpático senhor japonês que se ofereceu para tirar uma foto minha. Ele era um Hibakusha, um sobrevivente da explosão atômica, e estava ali como voluntário para explicar a história da cidade e contar coisas que os museus escondem sobre o que realmente aconteceu depois que os americanos chegaram. O que ele me disse, merece um texto especial.

Planeta: Terra. Cidade: Tóquio

18 jun

Clique na imagem abaixo para assistir um belíssimo vídeo sobre Tóquio. São fotos tiradas em sequência com uma câmera Canon 7D e a música é fantástica. Ah, eu amo essa cidade!

crédito: Ovelha Elétrica

O cão mais leal do mundo

25 mai

“Nos encontramos no Hachiko” talvez seja a frase mais comum entre amigos que marcam um ponto de encontro em Shibuya, bairro jovem, de lojas e bares de Tóquio. Pelo menos entre estrangeiros, a segunda mais comum talvez seja “O que é Hachiko?”.

Desde que cheguei na terra do sol nascente tenho me fascinado com estátuas antigas de samurais, ora trajados em imponentes armaduras, ora montados em elegantes cavalos. Todas elas com gloriosas histórias, como se espera de alguém que foi imortalizado num objeto de arte. Porém, imaginem minha surpresa ao constatar que a Hachiko que não é nada mais, nada menos do que a estátua de um cachorro.

Estátua de Hachiko

Muitos japoneses admiram a estátua, que é um dos pontos turísticos da cidade. É comum ver jovens estudantes e turistas posando para fotos com Hachiko.

Confesso que a primeira vez que cheguei ao famoso ponto de encontro, nem percebi que havia uma estátua ali, tamanha a concentração de gente. Haviam tantas pessoas que não dava nem para andar! Fiquei a imaginar por que marcar num ponto de encontro onde todo mundo marca. Não seria mais fácil combinar onde não tem ninguém? E também não entendi o motivo de ter de ser essa estátua do cachorro, sendo que há um monte de outras mais legais na região. Talvez  por ser kawai? (fofinho, os japas adoram). Depois de conhecer a história do cachorro, porém, entendi por que não existe lugar melhor para se encontrar alguém do que junto ao Hachiko.

Hachiko (lê-se ra, como em rato - ti - co) é o nome de um cachorro da raça Akita, típica do Japão, e que pertenceu a Hidesaburō Ueno, um professor da Universidade de Tóquio que se mudou para o bairro de Shibuya em 1924. Hachiko era muito querido pelo Professor Ueno e demonstrava seu afeto acompanhando todos os dias seu mestre até a estação de trem. No final da tarde, quando o professor retornava da universidade, Hachiko voltava e o esperava em frente a estação. Os dois então voltavam juntos para casa.

A rotina continuou naturalmente até maio do ano seguinte, 1925, quando Professou Ueno sofreu um ataque na universidade e faleceu subitamente. Não é difícil imaginar seu fiel cão, Hachiko, esperando seu retorno por horas em vão naquele trágico dia. Ele tinha 18 meses nessa época.

Depois da morte de seu dono, Hachiko foi confiado as outras famílias, amigos e parentes de Ueno. Aflito, ele frequentemente fugia à procura de seu dono.  Ao perceber que o professor já não estava mais na casa onde morava, Hachiko resolveu esperar em seu antigo ponto de encontro: em frente à estação de trem de Shibuya. E foi como a lenda começou.

Hachiko voltava pontualmente no mesmo horário que parava o trem que outrora trazia seu dono. Sentava-se à frente da saída e esperava seu dono surgir entre as centenas de pessoas que saíam dos vagões. Os dias foram passando, viraram semanas, meses e anos. Alguns passageiros que já conheciam a cachorro por tê-lo visto em companhia de seu dono foram tocados pela devoção de Hachiko e passaram a trazer alimento para consolar a espera que nunca teria fim.

E assim foi por 10 anos, até 8 de março de 1935, quando Hachiko finalmente não apareceu para esperar seu mestre, já que o havia encontrado no além-vida.

A história tocou o coração dos japoneses e Hachiko virou símbolo de lealdade, sendo usado como modelo para educar crianças em escolas. Graças a essa fábula verídica, os cães de sua raça, Akita, viraram febre no Japão e foram salvos de uma quase extinção. Um famoso escultor japonês ergueu o momumento em memória a tocante história de amor entre um cachorro e seu dono e a estátua de bronze é hoje um dos mais importantes pontos de encontro de Tóquio.

É uma história fascinante e que me inspirou a escrever um artigo na Wikipedia, que traduzi do inglês e que recomendo para quem quiser mais detalhes. Além disso encontrei um vídeo que resume toda a história numa riqueza imensa de detalhes. Vale a pena assistir (deixe os lenços de papel por perto)!

Já fazia tempo que queria postar essa história. Pelo menos antes da adaptação americana de Richard Gere. Até aprecio a consideração que Holywood teve pela história do cachorrinho, que já tem mais de 70 anos. Prefiro não pensar que fizeram só por causa da crise de roteiros originais e esperar que eles não estraguem tudo. Eu realmente sou apaixonado por essa história e acho que tem mesmo que espalhar para o mundo todo.

Image Hosted by ImageShack.usCuriosidades: A estátua original foi derretida para abastecer as fábricas balísticas durante a Segunda Guerra Mundial, a atual foi refeita a partir do molde da antiga. Os restos mortais de Hachiko foram empalhados e podem ser vistos no Museu de História Natural em Ueno. Porém, sua carne foi cremada e enterrada junto com seu querido mestre e jaz no requintado Cemitério de Aoyama.

Spoiler do filme: A história se passa em Connecticut dos dias atuais e o cão, chamado apenas de Hachi (o “ko” no japonês tem o sentido de “pequenino”) é trazido do Japão. Abandonado nas ruas, logo é adotado por um professor chamado Parker (Gere) e os dois se tornam grandes amigos. Há boatos que o ator japonês Ken Watanabe (de “Último Samurai”) apareça no filme.

Para assistir: O filme “original” japonês se chama “Hachiko Monogatari” (A história de Hachiko) e é de 1987. As cenas do vídeo do post foram retiradas desse longa. Se procurar bem, pode-se encontrar na internet… atchimm!!!

links: wikipedia, japanprobe, hachiko movie, findagrave

Google revela Tóquio obscura

12 mai

Gritos de horror, urros de indignação, repulsa e vergonha. O começo de maio foi agitado com a notícia de que mapas antigos de Tóquio haviam sido adicionados ao popular software Google Earth. Graças à imposição de imagens, tornou-se possível visualizar a capital japonesa de centenas de anos atrás com precisão assustadora. A localização de bairros, parques, pontes e prédios de Edo sobreposta sobre a cidade atual permitiu determinar pontos históricos de outrora para os olhos de qualquer curioso capaz de segurar um mouse.

O que a Google não contava era com a resposta da sociedade japonesa que, ofendida e sentindo-se violada, moveu processo contra a gigante alegando que a empresa estaria promovendo discriminação racial. Mas como um mapa antigo, projetado e arquivado pelo próprio povo japonês, pode de alguma forma causar dano a alguém?

Ao que parece, a publicação do mapa virtual revelou um lado histórico cujo os japoneses tentam a todo custo esconder. Há centenas de anos, no Japão feudal do Xogum, a sociedade era dividida por castas. Era proibido mudar de classe social uma vez nascido dentro da mesma, portanto um samurai que nascera samurai, morreria samurai e assim por diante. Assim como havia a alta classe, os sacerdotes e os comerciantes, existia também uma classe baixa, chamada “burakumin“. Mais do que discriminados pelo restante das castas, os burakumin eram considerados os mais baixos dos seres humanos, a ralé, e eram comumente chamados de eta (穢多 “massa imunda”). O motivo desse ódio vinha pelo fato desse povo executar trabalhos considerados “espiritualmente impuros” por lidar diretamente ou indiretamente com a morte. Executores, açougueiros e artesãos de couro encaixavam-se nessa classe e viviam em casebres distantes do centro urbano daquela época.

eta eta eta

Na imagem acima pode-se ler etamura (穢多村) - a vila do povo imundo

Com o fim do Xogunato a divisão da sociedade por castas foi abolida e todos foram legalmente considerados cidadãos comuns. Mais tarde com o desenvolvimento dos centros comerciais e a criação de grandes cidades, os pacatos vilarejos dos burakumin foram engolidos pelo progresso. Veio a abertura do país ao exterior, desenvolvimento industrial, a guerra, a retomada econômica e ainda hoje se fala de castas de antepassados. Se muitos se gamam de descenderem de famílias samurais ou de artistas famosos, uma minoria da população japonesa tenta dignamente manter o orgulho de se originar de clãs burakumin. No Japão, estima-se que os burakumin somem 3 milhões de pessoas, de um total de 127 milhões.

O simples fato de ter um parente remoto que foi um dos eta pode trazer sérias consequências perante à sociedade, desde conseguir um cônjuge até mesmo influenciar uma oportunidade de emprego. É amplamente difundido que os burakumin, assim como outras minorias no Japão, não são dignos de confiança e até de respeito. Como todo preconceito e discriminação racial, o ódio impensado e a ignorância impedem qualquer ação racional. Essa série de dificuldades forçou os descendentes a criarem uma rede de apoio altamente organizada que defende os interesses do grupo perante o restante da sociedade japonesa. Foi esse mesmo grupo que se sentiu ofendido com o aplicativo que mostra com exatidão onde se concentram as famílias burakumin. Por uma razão óbvia, muitas pessoas preferem passar incógnitas por esse rótulo e se sentiram expostas quando seus lares foram revelados no Google Earth.

Para um estrangeiro é complicado entender como algo que ocorreu há centenas anos ainda possa influenciar uma cultura moderna, que nem ao menos tem laços fortes com a religião. No caso de um brasileiro como eu, é ainda mais complexo fazer tal distinção de classe simplesmente pela ascendência da pessoa, e não por nível social, cultural e até mesmo étnico, já que os burakumin são japoneses autênticos, não diferenciando em absolutamente nada em relação aos demais. Se no Brasil temos preconceito contra alguém pela religião, cor de pele, modo de falar, jeito de vestir e até mesmo por gosto musical, é algo fora do comum ver diferentemente uma pessoa que poderia muito bem ser sua colega de trabalho ou escola só por que o tataravô fazia bolsas de couro.

Ao que parece a Google pediu desculpas pelo incômodo e pronunciou que nunca foi a intenção causar transtornos ou incentivar a discriminação. O mapa foi censurado, tendo as partes mais alarmantes apagadas. Se você lê inglês e gostaria de mais detalhes sobre o incidente, recomendo que leia o link de fontes abaixo. Especialmente esse post, onde pode se ter uma visão ainda mais ampla do problema dos burakumin lendo os comentários.

Fontes: Japan Times, Japan Probe, Wikipedia

ps: Eu não consegui encontrar o aplicativo dentro do Google Earth, apesar de ter procurado pela internet por mais de uma hora. Se alguém aí conseguir achar como ativa o mapa, deixe uma explicação nos comentários por favor!

As Japinhas também sabem sambar!

5 abr

Sanba assim

Sanba significa “três dentes” em japonês, mas eu dou 10 para a Japinha!

De vez em quando agente toma um susto com a TV japonesa. Quando você pensa que se acostumou com os programas bizarros e com os comerciais mega esquisitos que passam o dia todo na telinha, sempre tem alguma coisa que surpreende. Seja pelo conteúdo, seja pela abordagem, seja pelos dois. Ainda mais quando se trata de belíssimas mulheres sambando numa propaganda de goma de mascar.

Além do visual super colorido e a explosão de cores, todo mundo saltitando, feliz e agitado para remeter ao público japonês a vivacidade do povo brasileiro. Afinal de contas, Brasil é samba e carnaval na mente de muita gente. NADA CONTRA, principalmente com tanta mulher bonita mexendo desse jeito.

Há alguns trocadilhos com a palavra “samba”, que em japonês pode significar “três dentes”. Se você tiver curiosidade e quiser saber um pouco mais sobre esse comercial acesse o Muito Japão II (o meu caro colega blogueiro até se gaba de conhecer as dançarinas do vídeo, e até de já ter sambando com elas).

Clique na imagem ao lado para mais, hum, detalhes sobre nossa amiga Sae Yamamoto.

links: site oficial, Muito Japão II, girl.vinber

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