Arquivos | janeiro, 2012

Voluntariado – parte 1

30 jan

Estive recentemente em Tohoku, a região que em março de 2011 fora devastada pelo duplo desastre terremoto-maremoto. Foi minha terceira vez. A experiência foi excelente e aprendi muito com que vi, fiz e ouvi das pessoas que trabalham todos os dias para ajudar os sobreviventes. Os voluntários formam uma incrível irmandade que traz auxílio e dá esperanças às pessoas. Nas noites frias de janeiro, enquanto nevava do lado de fora do acampamento, todos se reuniam em torno de um aquecedor a óleo e conversavam animadamente sobre como poderíamos continuar contribuindo com a causa depois que voltássemos às nossas rotinas. Fiz a promessa de contar minha experiência no meu blog.

Faz tempo que eu quero falar sobre isso. O assunto é de difícil digestão e há muito o que falar, por isso irei escrever em partes. Vou tentar não escrever demais (esse é meu terceiro rascunho já). Como gosto de começar pelo começo, contarei o que aconteceu a partir do dia que o mundo tremeu.

Dia 1

Tóquio.
Sexta-feira, dia 11 de março, 2011.

O vento gelado cortava a pele do rosto. Mesmo envolto em roupagem grossa era difícil caminhar na rua sem se incomodar com o frio que parecia subir pelas pernas. Rapidamente, caminhei em direção à empresa, na tentativa de esquentar um pouco o corpo durante a caminhada. Em dias normais sempre encontrava turistas a frente do Kokugikan, tradicional arena de sumô, mas durante o inverno japonês poucos se atreviam parar para tirar fotos. Naquele gélida manhã não havia ninguém. Resolvi apertar o passo.

Ao entrar no escritório, o ar aquecido me fez relaxar os ombros. De camisa leve, dentro do prédio parecíamos viver em outra estação do ano. Despi o casaco, o cachecol e as luvas e fui me sentar. A notícia da semana era o lançamento de um famoso eletrônico que todos cobiçavam. Inclusive eu. Receoso com consumidores fanáticos que esgotam os produtos nas primeiras horas de venda, planejei acampar em frente à loja na noite anterior ao lançamento. Haviam ainda duas semanas, mas queria me preparar com antecedência. Pedi a um colega que me emprestasse uma barraca para que pudesse dormir mais tranquilamente na rua. Um outro amigo, que revesaria na fila comigo, sugeriu antecipar duas noites e juntos preparamos uma lista com itens que precisaríamos na aventura: barraca, coberta, água, biscoitos e lanterna.

Não queria utilizar mais que um dia de férias já que receberia meus pais nas primeiras semanas de abril. Era a primeira vez que eles viriam ao Japão e queria aproveitar ao máximo o tempo que passariam comigo. Mesmo sendo filho de japoneses meu pai nunca teve a oportunidade de viajar para tão longe e minha mãe sempre tivera profundo respeito e admiração pelo povo japonês. Eu estava muito feliz e ansioso para mostrar as peculiaridades do país que escolhi para amadurecer. Já havia entregado o pedido de férias para meu superior e já havia recebido confirmação das datas dos vôos.

Naquela sexta-feira o dia correu normalmente. À tarde, o escritório estava tranquilo e todos trabalhavam silenciosamente. Eu havia retornado no almoço há pouco tempo e estava checando e-mails quando alguém exclamou:  ”Jishin!”. Virei a cabeça para olhar o biombo que separa meu setor do vizinho. O biombo começou a balançar levemente. Desde que me começara a trabalhar ali, experienciei apenas dois ou três terremotos em quase 3 anos. Apesar de haver muitos tremores, apenas sentimos os mais fortes. Mesmo assim era raro percebê-los. “Jishin? Tem certeza? Não estou sentindo.” perguntou a gerente. Levantei-me. “É um terremoto sim. Veja, o bimbo está balançando!” disse num tom gozador. Mal terminei a sentença e o tremor veio forte, como se um gigante houvesse chutado o prédio. “Nossa, esse é forte.” comentou um colega. “Rápido! Abram as portas!” gritou o líder do meu setor. Dois colegas, os que sentavam mais próximos às portas, levantaram-se rapidamente e abriram as portas. Terremotos fortes podem entortar paredes e impedir a abertura de portas e janelas. Por isso quando se vive em região que há terremotos, assegurar-se que a porta de saída está aberta é uma das primeiras coisas que aprendemos. Todos estavam petrificados de medo.

(mais…)

5 anos no Japão

7 jan

Há exatamente 5 anos atrás desembarcava no aeroporto internacional de Narita, à 60 km de Tóquio, um rapaz de 26 anos meio desorientado, mas excitado por estar pela primeira vez no estrangeiro. Assim como seus compatriotas não fizera planos, não tinha amigos e nem muito dinheiro. Na bagagem havia apenas sonho. Não sabia o que esperar, muito menos como seria viver nesse país que era tão diferente da sua terra natal, mas a vontade de explorar o mundo lhe dava forças. O rapaz era eu.

Monte Fuji

Em retrospecto, posso dizer que foram os cinco anos mais intensos e ao mesmo tempo mais monótonos da minha vida. Extremamente importantes para meu amadurecimento, sem sombra de dúvidas, mas anos sofridos. Perdi a conta de quantas vezes fiquei deprimido por não ver mais meus amigos e minha família. Porém, crescemos e melhoramos ante as adversidades. E foram muitas delas, especialmente nos últimos tempos. O terremoto de março do ano passado me fez abrir os olhos e descobrir o que realmente é importante na minha vida. Um evento dessa proporção pontua uma fase de transformações internas e de revisão de valores na vida de qualquer pessoa. Dei-me conta de como sou insignificante e impotente ante as dores do mundo. Isso mexeu em algo profundo em meu íntimo e iniciou uma série de pequenas revoluções no meu carácter.

No trabalho, as coisas também estão complicadas. A crise mundial já se arrasta por anos e suas consequências estão se agravando. O mundo mudou e ninguém sabe ao certo como reagir. Em meio a tantos questionamentos, acabei perdendo a inspiração para escrever no blog. Colocar ideias conflitantes em ordem leva tempo. E meu coração é só vertigem. Mesmo com um intervalo de quase um ano desde a última atualização, as palavras ainda me vêm com dificuldade. Como dizia o poeta: “não sei o que dizer e nem o que sentir”. Mas sei que é a hora de voltar a registrar minhas aventuras no diário de viagens.

Meu grupo teve a sorte de ser fotografado pelo site 37 frames. Na imagem, o momento em que me despeço de uma das vítimas do maremoto, após dois dias removendo entulho de sua loja.

A coisa mais importante que me aconteceu no ano de 2011 foi o voluntariado. Para mim um assunto extremamente delicado e de difícil explanação. Estive um par de vezes em Tohoku, na região devastada pelo maremoto e desde então tenho me envolvido com pequenas ações solidárias. Ser voluntário foi uma das experiências mais marcantes que tive. Pretendo descreve-la melhor em textos futuros. Poucas coisas são mais nobres do que se ajudar um desconhecido apenas por compaixão. Conheci pessoas incríveis durante o ano passado e decidi investir parte do meu tempo sendo voluntário.

Nunca imaginei que ficaria 5 anos vivendo longe de casa. Para mim é um ciclo que se encerra e o início de uma nova fase na minha vida. Creio que 2012 me trará grandes mudanças.

O rapaz cresceu. Agora tem 31 anos. Em sua bagagem já não há muitos sonhos, mas experiências.

Obrigado a todos os leitores e meus sinceros votos (atrasados) de ano novo. Que possamos todos aproveitar ao máximo as oportunidades que certamente virão em 2012.

Força sempre!

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